Artigo: "Voltar ao normal. Qual normal?", por Silvio Belbute

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O texto de hoje é do jornalista e sociólogo Sílvio Belbute, nosso colaborador da rede.

QUAL NORMAL?

Há ciclos inexoráveis na história da humanidade. São ciclos que se encerram para dar início a um novo ciclo, sucessivamente. E tais encerramentos ocorrem nas primeiras décadas de cada novo século. Ainda não há uma explicação, uma justificativa, uma teoria ou tese sobre tais ocorrências, mas elas acontecem.

Há sempre pistas, aleatórias, apontando sobre as mudanças vindouras. Porém, sem termos certezas sobre o quão profundas serão.



Em 2019 encerramos um ciclo. E não sabíamos. Algumas pistas estavam à nossa frente: agravamento das relações (confrontos políticos, como vimos nos EUA), aumento do fanatismo religioso (crescimentos dos grupos radicais, tanto no oriente como no ocidente, como no Brasil com a ascensão de “terraplanistas” e “criacionistas”), guerras, ampliação das desigualdades sociais (aumento nos índices de pobreza em diversos países latino americanos como na Venezuela e Argentina) , crises financeiras/monetárias (como a crise econômica de 2015), avanços tecnológicos (visitamos Plutão e vimos a primeira sonda construída pelo homem deixar o sistema solar), descobertas científicas (foguetes reutilizáveis, confirmação da chamada “matéria escura”, reprogramação de células tronco).

Sim, tu podes dizer que tais fatos ocorrem todos os anos. E não estarás errado. O dado, para prestarmos atenção, é o volume de tais ocorrências. E nos últimos 10 anos, este volume de ocorrências cresceu exponencialmente, em relação a década anterior.

Digamos que seja como um parto: quanto mais perto do nascimento, mais dores e desconfortos.

Não podíamos imaginar como seria 2020. Fizemos nossos planos, estabelecemos nossas metas, definimos nossa trajetória para atingirmos nossos objetivos no final daquele ano. E tudo mudou de uma hora para outra. Nos sacudiu, nos deixou perplexos e nossa primeira reação foi de não acreditar ou aceitar nas mudanças que fomos forçados a realizar em nossas vidas.

Talvez essas ocorrências tenham como objetivo nos retirar da “zona de conforto”, nos fazer repensar nossas vidas, atitudes, relacionamentos, profissão...nossa fé.

E isso, meus caros, é muito bom.

Sempre que nos acomodamos, deixamos de evoluir. Seja como pessoas, seja como profissionais. Então, volta e meia, uma sacudida nos faz alçar novos voos, perceber novas oportunidades, nos forçar a reavaliar e nos renovarmos, nos reinventarmos.

Não, não voltaremos àquele normal de até 2019.

2020 sofremos um impacto inesperado, como se estivéssemos num ônibus e de repente ele freasse bruscamente. Alguns jogados ao chão, outros agarrando-se firmemente em apoios para não cair. E o ônibus parou. A vida parou. Então começamos a nos recompor para tentar entender o que havia ocorrido.

Todas as áreas da vida humana foram atingidas. A educação não voltará a ser a mesma de antes, os modelos de ensino hibrido vieram para ficar e forçará um redesenho nos formatos pedagógicos e didáticos e até mesmo em conteúdo – alunos assumindo protagonismos ao ensinar os professores como utilizar as ferramentas digitais; a ciência acelerou processos para salvar nossas vidas, de uma forma nunca antes vista na história; o modelo home office se consolida como novo formato de relações trabalhistas e forçará em revisão das leis; a digitalização das empresas – que vinha acontecendo de forma gradual – também provocou mudanças nas estratégias corporativas, novas soluções foram e estão sendo criadas, bem como novas empresas para prestarem estes serviços.

As novas relações sociais e profissionais estão se formando e neste primeiro momento deixará muitos de fora. Nem todos terão acesso às novas tecnologias, nem todos poderão usufruir do trabalho em casa.

Perdemos muitos amigos, familiares e este luto ainda perdurará por muito tempo. E o vivenciaremos de forma individual e coletiva. Não é só a tua dor, mas é a nossa dor.

Os relacionamentos sofreram reavaliações: famílias forçadas a convivência diária, conhecendo melhor seus pares, filhos, pais, mães, irmãos; casais percebendo suas fortalezas e outros suas fraquezas; o mesmo com nossos amigos, conhecidos, colegas de trabalho. Acabamos conhecendo as verdadeiras faces destas relações e reavaliamos quais mantermos e fortalecermos e quais apenas deixamos de lado.

Ainda viveremos por um bom tempo o confronto entre “negacionistas” e ciência, mas essa certamente prevalecerá.

Poderia citar e relacionar inúmeros outros impactos.

Eu mesmo fui forçado a me reinventar. Buscar novos caminhos profissionais, novas oportunidades de negócios, descobrir a força do meu atual relacionamento, para ficar nestes.

Ainda estamos no processo de transformação. Talvez dure mais dois, três ou cinco anos. E tudo isto é maravilhoso. Tudo isto é fantástico. Como um otimista incorrigível, percebo o nascimento de um novo homem, que está aprendendo a diferenciar aquilo que é importante, daquilo que simplesmente não importa mais. Seremos mais leves, menos consumistas, mais colaborativos. E acredito fortemente neste conceito: colaboracionismo. Isto será, sem dúvidas, a maior marca deste século.

E depois que toda esta tempestade passar, é para esse "novo normal" – não gosto muito desta expressão, mas enfim – que voltaremos.


Silvio Luiz Belbute
Jornalista e sociólogo
MTb 0018790/RS



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