ARTIGO: "Cultura do cancelamento e a queima de livros", por Silvio Belbute

A Rede #AtitudePositiva sempre abre espaço para qualquer pessoa escrever um artigo para as nossas plataformas. Basta ter uma mensagem construtiva, uma reflexão transformadora ou um tema positivo expressadas num bom texto de qualquer tamanho. Pedimos que evitem polêmicas políticas, ideológicas, religiosas ou algo parecido, para o bem comum de nossos leitores. Envie seu texto com nome completo, RG e telefone de contato para redacaoatitudepositiva@gmail.com. As opiniões emitidas nos textos dos colaboradores não refletem necessariamente a linha editorial de nossa plataforma de conteúdo multimídia.

O texto desse post é do jornalista e sociólogo Silvio Belbute, nosso colaborador da rede.


CULTURA DO CANCELAMENTO E A QUEIMA DE LIVROS


Virou “modinha”, em tempos de redes sociais, algo chama “cultura do cancelamento”.

Porém, tal prática não constitui qualquer novidade na história da humanidade. E não vou falar dos fuzilamentos atrás da “Cortina de Ferro”, na antiga URSS (União Soviética), ou em Cuba, ou na China.

Por volta de 640 d.C. a maior biblioteca do mundo antigo é incendiada, totalmente destruída e todo o conhecimento acumulado se perde para sempre. Há diversas versões sobre o fato, a mais comum diz ter sido ordenada pelo califa Rashidun Omar ibn al-Khattab, após a conquista do Egito.

Antes disto, na China, o rei Zheng da Dinastia Chin, manda queimar os livros, por volta de 213 a.C. Mao Tse Tung repetiu o ato durante a Revolução Cultural, em 1966, incluindo o enforcamento público de professores.

Durante a Inquisição, promovida pela Igreja Católica, milhões de livros e milhares de pessoas foram queimada, em fogueiras públicas, nos anos de 1231 até 1542.

Pixabay

Em 1933, os nazistas promoveram o Bücherverbrennung (queima de livros), num ato de “purificação pelo fogo”.

O Departamento de Estado dos EUA acionou a justiça americana que ordenou a queima de livros sobre o orgasmo em 1954.

Durante a ditadura Vargas, no Brasil, milhares de livros foram queimados, a partir de 1937.

Enfim, são inúmeros exemplos, em todas as épocas, em todos os países.

E qual a relação entre queima de livros e a “cultura do cancelamento”?

Intolerância. Incapacidade de lidar com visões de mundo distintas das nossas. Então, queimar um livro, é “cancelar” uma ideia, “cancelar” um autor, “cancelar” uma pessoa por pensar diferente de um determinado grupo.

A cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neumann, criou em 1977 a teoria da “Espiral do Silêncio”. No modelo proposto por Neumann, as pessoas omitem suas opiniões, quando conflitantes a determinado grupo, por medo do isolamento, das críticas e de linchamento público. A partir desta teoria (em prática nas redes sociais), é que foram geradas ações de grupos, tais como “lugar de fala” e a própria “cultura do cancelamento”.

O “lugar de fala” visa isolar indivíduos, inibindo suas opiniões, usando como justificativa não pertencerem a determinado grupo. Assim, homens são impedidos ou censurados ao tratarem de temas “exclusivos” para mulheres; brancos são impedidos ou censurados de falarem sobre negros; pessoas com “ideias de direita” são impedidas ou censuradas ao falarem sobre “ideias de esquerda” e vice versa. E por aí vai. Desta forma, apenas os grupos cujos pensamentos e ideias são iguais podem falar entre si. Aqueles que ousam ultrapassar este limite imposto, são vítimas do “cancelamento”.

A intolerância vem do desconhecimento, da ignorância (no sentido de não saber), do medo de deixar de pertencer e ser aceito por determinados grupos. E esta intolerância individual ganha força quando somada a de outros indivíduos de um grupo, que passa a ter um “comportamento de manada”, estimulado por palavras de ordem, gerando violências física, emocional ou psicológica.

Um exemplo clássico é a violência entre torcidas de times de futebol. Individualmente, dificilmente um torcedor é capaz de perpetrar atos de agressão a outro. Porém, em massa, estimulados, os grupos de torcedores travam verdadeiras batalhas campais. E são inúmeros os casos de mortes nestes embates.

É o “cancelamento” do outro, por não ser como eu, por não pensar como eu, por não torcer para o mesmo time.

A “cultura do cancelamento”, fruto da “Espiral do silêncio”, nada mais é que o assassinato virtual, cometido por uma horda de radicais, incapazes de aceitar o contraditório e por serem incapazes de elaborar argumentos válidos para contrapor uma ideia.

Então, assim como os livros, tais pessoas são “queimadas” na fogueira pública virtual.


Silvio Luiz Belbute
Jornalista e sociólogo
MTb 0018790/RS



APOIO:



Comentários