Janeiro Branco: por que a depressão cresce entre pessoas com 60+ e como enfrentá-la

A campanha Janeiro Branco, dedicada à conscientização sobre saúde mental e emocional, ganha relevância especial ao jogar luz sobre um problema que ainda permanece subestimado no Brasil: a depressão entre pessoas com 60 anos ou mais. 

Resumo do que você vai ler aqui:

  • O Janeiro Branco destaca a importância da saúde mental na velhice, tema central de saúde pública no Brasil.
  • Em 2019, 13,2% dos brasileiros entre 60 e 64 anos foram diagnosticados com depressão, faixa etária mais afetada segundo o IBGE.
  • Depressão em idosos costuma aparecer como apatia, irritabilidade e alterações físicas, dificultando o diagnóstico precoce.
  • Estigma e crenças culturais afastam idosos ainda mais do cuidado, tornando essencial o apoio da família e a escuta sem julgamentos.
  • Especialistas reforçam: depressão não é fraqueza nem fase da idade; falar, escutar e cuidar devolvem sentido e futuro ao idoso.


Em um país que envelhece rapidamente, falar de saúde mental na velhice deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar individual e passou a ser uma questão central de saúde pública, com impacto direto sobre famílias, redes de apoio, comunidades e o próprio sistema de cuidado.

Criado em 2014, o Janeiro Branco nasceu com a proposta de colocar a saúde mental no centro da conversa pública, de forma acessível e responsável. 

Para Leonardo Abrahão, psicólogo, palestrante, escritor e criador da campanha, a iniciativa parte do entendimento de que o sofrimento psíquico não é um problema privado.

— O Janeiro Branco existe para falar com indivíduos, instituições e autoridades, porque o sofrimento emocional atravessa famílias, escolas, ambientes de trabalho e políticas públicas. Ele precisa ser tratado como um tema coletivo — afirma.

A escolha do mês e da cor não é aleatória. Janeiro, culturalmente associado a planos e recomeços, funciona como um convite à reflexão. O branco simboliza uma página aberta.

— A cor branca representa a ideia de uma folha em branco, sempre disponível para novas escolhas, novas prioridades e novas formas de viver. É um convite simbólico, mas profundamente concreto — explica Abrahão.

Em 2026, o tema da campanha é "Paz, Equilíbrio e Saúde Mental", reforçando a necessidade de olhar para o sofrimento psíquico de maneira contínua, preventiva e livre de estigmas, inclusive no envelhecimento.


Depressão cresce no país e atinge com mais força os idosos

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a depressão avançou de forma consistente no Brasil. 

Em 2019, 10,2% da população adulta relatou ter recebido diagnóstico por profissional de saúde mental, o equivalente a cerca de 16,3 milhões de pessoas. O percentual representa um crescimento de 34% em relação a 2013.

Quando o recorte é por idade, o alerta se intensifica. Ainda segundo o IBGE, a faixa etária proporcionalmente mais afetada foi a de 60 a 64 anos, com 13,2% diagnosticados com depressão. 

O dado chama atenção não apenas pela prevalência elevada, mas também pelo risco de invisibilidade do sofrimento emocional nessa fase da vida.

O boletim Fatos e Números: Saúde Mental, publicado pelo governo federal em 2022, reforça esse cenário ao apontar que idosos apresentam maior prevalência de depressão no Brasil, além de crescimento gradual dos indicadores de sofrimento psíquico ao longo do envelhecimento.

Para Abrahão, esse dado precisa ser lido à luz do etarismo ainda presente na sociedade brasileira.

— Envelhecer não é um "fim social". Mas o Brasil ainda carrega a ideia de que a pessoa vale menos quando "produz menos". O Janeiro Branco entra como uma necessidade civilizatória: lembrar que saúde mental também é pertencimento, propósito, dignidade, escuta e proteção — afirma.


Desafio de reconhecer o problema

Um dos principais desafios no cuidado com a saúde mental dos idosos é reconhecer o problema. A psicóloga Denise Milk, do Grupo Mantevida, explica que a depressão nessa fase da vida costuma se manifestar de forma diferente da observada em adultos mais jovens.

— Na velhice, a depressão aparece menos por relatos diretos de tristeza e mais por alterações comportamentais, cognitivas e físicas. Apatia, irritabilidade, lentificação, alterações de sono, queda de energia e queixas somáticas são sinais frequentes — explica.

Abrahão reforça que esperar apenas a "cara clássica" da depressão é um erro comum.

— Em muitos idosos, a depressão surge como desânimo persistente, isolamento, queixas físicas frequentes ou um apagamento da vontade de viver o cotidiano. Por isso, é perigoso achar que só existe depressão quando há tristeza declarada — alerta.

Esse padrão contribui para o subdiagnóstico, já que os sintomas acabam interpretados como parte natural do envelhecimento.

— Existe uma crença cultural de que envelhecer é perder interesse, vitalidade e alegria. Isso normaliza o sofrimento emocional e adia o cuidado — complementa Denise.

Lutos, solidão e mudanças profundas

O envelhecimento é marcado por transições que podem fragilizar emocionalmente: perdas de pessoas próximas, aposentadoria, redução da rede social, mudanças no papel familiar, surgimento de doenças crônicas e, em alguns casos, perda de autonomia.

— São lutos sucessivos que exigem reorganização da identidade. Quando esse processo não é cuidado, o risco de adoecimento emocional aumenta — explica Denise.

Abrahão acrescenta que fatores como solidão e sensação de inutilidade social são gatilhos frequentes, mas não determinantes.

"A tristeza faz parte da vida. Já a depressão é persistente. Mas gatilho não é destino. Com vínculo, escuta, rotina e apoio profissional, é possível reconstruir sentido", diz o psicólogo.

Estigma ainda afasta idosos do cuidado

Outro desafio importante é o estigma em torno da saúde mental. Muitas pessoas idosas cresceram em contextos em que sofrimento emocional era visto como fraqueza ou assunto a ser suportado em silêncio.

— A mente ainda é tratada com preconceito, enquanto o corpo recebe atenção imediata. Tristeza, apatia e desesperança são erroneamente atribuídas à idade, como se fossem naturais depois dos 60. Não são — afirma Abrahão.

Segundo Denise, isso dificulta a busca por ajuda e reforça o isolamento.

— Em alguns casos, admitir sofrimento é vivido como ameaça à autonomia, à competência ou à imagem construída ao longo da vida — completa.


Papel decisivo da família


No contexto da depressão e da saúde mental, familiares e cuidadores têm papel central na identificação precoce dos sinais e no incentivo ao cuidado. Mudanças persistentes de comportamento devem acender o alerta.

— Quando a pessoa se isola, abandona atividades, muda muito o sono e o apetite, passa a dizer que "não faz falta" ou demonstra perda de interesse pela vida, é hora de agir — ressalta Abrahão.

Para o psicólogo, a forma de abordagem faz toda a diferença.

— O cuidado começa com respeito e presença. Perguntas simples, como "eu percebi que você não está bem, quer me contar?", são mais eficazes do que discursos ou conselhos apressados — emenda.


"Ninguém deve sofrer em silêncio"

Para Abrahão, a principal mensagem do Janeiro Branco quando o tema é a depressão na terceira idade é clara:

— Depressão não é fraqueza e não é fase da velhice. É uma condição de saúde. Ninguém deve sofrer em silêncio. Falar salva. Escutar protege. Cuidar devolve futuro, mesmo quando a pessoa acha que o futuro acabou.

No espírito da campanha, o especialista deixa um recado direto às famílias:

— Não tratem a dor do idoso como drama nem como coisa da idade. Tratem como humanidade. Incluam a pessoa nas conversas, nas decisões e nos afetos. Cuidar da saúde mental dos nossos idosos é um retrato fiel do tipo de sociedade que escolhemos ser.

Como a família pode ajudar um idoso com sinais de depressão

  • Observe mudanças persistentes de comportamento: isolamento, apatia, irritabilidade, abandono de atividades, descuido com a higiene e queixas físicas frequentes sem causa clínica clara
  • Evite minimizar ou normalizar a dor: frases como "isso é da idade" ou "todo mundo passa por isso" silenciam o sofrimento
  • Abra espaço para diálogo verdadeiro: escuta sem julgamento fortalece o vínculo e reduz o isolamento emocional
  • Estimule a busca por ajuda profissional: psicoterapia é indicada e eficaz em qualquer idade e pode ser combinada com medicação, quando necessário
  • Fortaleça vínculos e rotinas com sentido: incentive atividades sociais, hobbies, encontros familiares e participação comunitária
  • Acompanhe o tratamento de forma ativa: apoie consultas, uso correto de medicação e continuidade do cuidado
  • Cuide também de quem cuida: o sofrimento emocional de um idoso impacta toda a família; orientação profissional também pode ser necessária para os cuidadores
Fonte: GZH



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