A Portela cruzou a Marquês de Sapucaí, na madrugada desta segunda-feira (16), no primeiro dia de desfiles do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro. A escola de Madureira apresentou um enredo voltado à religiosidade, à cultura e à resistência negra no Rio Grande do Sul.
| Clara Radovicz - Riotur |
O desfile começou com atraso, às 2h16min, e terminou às 3h35min, com duração de 79 minutos — apenas um minuto antes do máximo permitido. A demora para entrar na avenida foi causada por problemas anteriores: a Acadêmicos de Niterói, primeira escola da noite, teve dificuldades na dispersão, o que acabou comprometendo o restante da programação.
Terceira agremiação do Grupo Especial a passar pela Sapucaí neste Carnaval, a Portela teve Amaury Lorenzo como uma das peças centrais desfile. A evolução da escola, contudo, foi comprometida por problemas técnicos.
Problemas na evolução
No final do desfile, o carro alegórico que trazia a Velha Guarda da Portela teve problemas ao entrar na avenida. A falha acabou provocando um "clarão", um enorme buraco entre as alas.
Com a demora da alegoria, a última do desfile, o desfile teve que parar para aguardar sua chegada, obrigando as alas seguintes a apertarem o passo nos módulos finais para não estourarem o tempo.
A bateria terminou o desfile às pressas, tendo que passar pelos lados do carro parado. O problema causou preocupação em componentes da escola.
Do ponto de vista visual, a alegoria República Batuque Riograndense deveria trazer a cabeça do Bará imponente no topo. No entanto, a escultura apareceu afundada no carro, impossibilitando a visão correta da estrutura e deixando apenas a turba em evidência.
O desfile contou com 24 alas, cinco carros e três tripés. Ao todo, foram 2,7 mil componentes que compuseram o desfile nas cores azul e branco.
Com o tema O mistério do Príncipe Bará: a oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande, a agremiação azul e branco levou para a avenida a história do Príncipe Custódio. Africano que chegou a Porto Alegre no século 19, ele se tornou uma referência religiosa, cultural e política para a população negra da capital gaúcha.
A narrativa destacou a presença das tradições de matriz africana no Sul do país e ressaltou a fé como elemento de resistência e afirmação identitária. Ao transformar a Sapucaí em território simbólico da ancestralidade, a Portela apostou em um desfile de forte carga histórica e espiritual.
O desfile contou com referências importantes da capital gaúcha, como o Mercado Público e o Palácio Piratini. Além de referências do bairro Cidade Baixa.
Um dos destaques do desfile foi um grande drone com uma pessoa em cima. Durante a apresentação do coletivo, o tripé de apoio se abriu, e um integrante, montado num superdrone iluminado, decolou e sobrevoou os demais bailarinos. Na história, era a redenção do Negrinho do Pastoreio, que após várias provações.
Quem foi Príncipe Custódio?
Vindo do Benin, na África, Custódio Joaquim Almeida viveu em Porto Alegre no início do século 20. Referência cultural e religiosa não apenas para a comunidade negra, mas também para líderes políticos locais, foi um dos mais excêntricos e influentes personagens de seu tempo.
Em Porto Alegre, registra-se que viveu uma vida cercada de luxo. Vestia-se de modo refinado, tinha cavalos no prestigiado Prado Independência, embrião do Jockey Club, e recebia a alcunha de "príncipe" por seus ares de nobreza. Mas sua imponência foi muito além do campo material.
O príncipe negro foi o responsável por deixar assentamentos de orixás, ou seja, pontos que representam a ligação da realidade com forças sobrenaturais, em Porto Alegre. O mais conhecido é o do Bará do Mercado Público, no centro da Capital.
O samba-enredo
Com o verso "Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar", o samba foi assinado em parceria com os compositores Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena.
A historiadora Fernanda Oliveira, professora do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS, também assinou o enredo da Portela neste carnaval, ao lado de João Vitor Silveira, Marcelo David Macedo e o carnavalesco André Rodrigues.
Em entrevista ao site GZH, ela contou que o convite surgiu a partir de um projeto da escola para descentralizar narrativas, buscando temas além do eixo Sudeste–Nordeste. Nesse mapeamento, o Rio Grande do Sul passou a ser considerado.
Após reunião com historiadores sobre os grupos étnicos gaúchos, Fernanda falou sobre a experiência negra no Estado e suas conexões com outras matrizes culturais. Dois dias depois, André Rodrigues pediu que aprofundasse o tema e a convidou para integrar o projeto, afirmando que o enredo já estava definido.
Inicialmente, ela imaginava atuar apenas como consultora, mas foi convidada a assinar oficialmente o enredo. Para a pesquisadora, o Príncipe teve papel fundamental na unificação do batuque, reunindo diferentes nações africanas e revelando um Rio Grande do Sul plural.
Veja o samba-enredo da Portela
Enquanto houver um pastoreio a chama não se apagará
Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar
Aê, oni Bará! Aê, babá lodê!
A Portela reunida, carregada no dendê
Sob o céu do Rio Grande, tem reza pra abençoar
O príncipe herdeiro da coroa de Bará
Aê, oni Bará! Aê, babá lodê!
A Portela reunida, carregada no dendê
Sob o céu do Rio Grande, tem reza pra abençoar
O príncipe herdeiro da coroa de Bará
Ê, Bará, ê, Bará, ô!
Quem rege a sua coroa, Bará?
É o rei de Sapaktá
Aláfia do destino no Ifá!
Tem mistério que encandeia
Pro batuque começar
Sou mistério que encandeia
Pra Portela incorporar
Vai, negrinho, vai fazer libertação
Resgatar a tradição onde a África assenta
Ô, corre gira, vem revelar o reino de Ajudá
O Pampa é terra negra em sua essência
Alupo, meu senhor, alupô!
Vai ter xirê no toque do tambor
Alumia o cruzeiro, chave de encruzilhada
É macumba de Custódio no romper da madrugada
Alupo, meu senhor, alupô!
Vai ter xirê no toque do tambor
Alumia o cruzeiro, chave de encruzilhada
É macumba de Custódio no romper da madrugada
Curandeiro, feiticeiro, batuqueiro precursor
Pôs a nata no gongá, ô, iaiá!
Fundamento em seu terreiro, resiste a fé no orixá
Da crença no mercado ao rito do rosário
Ainda segue vivo o seu legado
Portela, tu és o próprio trono de Zumbi
Do samba, a majestade em cada ori
Yalorixá de todo axé
Enquanto houver um pastoreio, a chama não apagará
Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar
Aê, oni Bará! Aê, babá lodê!
A Portela reunida, carregada no dendê
Sob o céu do Rio Grande, tem reza pra abençoar
O príncipe herdeiro da coroa de Bará
Aê, oni Bará! Aê, babá lodê!
A Portela reunida, carregada no dendê
Sob o céu do Rio Grande, tem reza pra abençoar
O príncipe herdeiro da coroa de Bará
Ê, Bará, ê, Bará, ô!
Quem rege a sua coroa, Bará?
É o rei de Sapaktá
Aláfia do destino no Ifá!
Tem mistério que encandeia
Pro batuque começar
Sou mistério que encandeia
Pra Portela incorporar
Vai, negrinho, vai fazer libertação
Resgatar a tradição onde a África assenta
Ô, corre gira, vem revelar o reino de Ajudá
O Pampa é terra negra em sua essência
Alupo, meu senhor, alupô!
Vai ter xirê no toque do tambor
Alumia o cruzeiro, chave de encruzilhada
É macumba de Custódio no romper da madrugada
Alupo, meu senhor, alupô!
Vai ter xirê no toque do tambor
Alumia o cruzeiro, chave de encruzilhada
É macumba de Custódio no romper da madrugada
Curandeiro, feiticeiro, batuqueiro precursor
Pôs a nata no gongá, ô, iaiá!
Fundamento em seu terreiro, resiste a fé no orixá
Da crença no mercado ao rito do rosário
Ainda segue vivo o seu legado
Portela, tu és o próprio trono de Zumbi
Do samba, a majestade em cada ori
Yalorixá de todo axé
Enquanto houver um pastoreio, a chama não apagará
Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar
Aê, oni Bará! Aê, babá lodê!
A Portela reunida, carregada no dendê
Sob o céu do Rio Grande, tem reza pra abençoar
O príncipe herdeiro da coroa de Bará
Aê, oni Bará! Aê, babá lodê!
A Portela reunida, carregada no dendê
Sob o céu do Rio Grande, tem reza pra abençoar
O príncipe herdeiro da coroa de Bará
O príncipe herdeiro da coroa de Bará
O príncipe herdeiro da coroa de Bará
Ê, Bará, ê, Bará, ô!
Fonte: GZH
Quer boas notícias todos os dias? E também receber conteúdo de qualidade com o nosso jornalismo de soluções? E ainda, estar atualizado com informações de serviço que ajudam na sua vida, saúde, comportamento e até mesmo sua vida financeira?
E inscreva-se também no Canal de YouTube do nosso editor, o Canal do Renato Martins.
Comentários