Pouco mais de um ano após a reabertura, o Aeroporto Internacional Salgado Filho segue apresentando sinais de recuperação na movimentação. Em 2025, o terminal chegou ao mesmo patamar de passageiros do período pré-enchente, em 2023, e mostrou número de voos próximo do registrado dois anos antes.
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| Fraport Brasil |
No entanto, o fluxo de cargas segue abaixo na comparação entre os dois períodos. Os dados, presentes no relatório de movimentação aeroportuária da Fraport Brasil, levam em conta voos domésticos e internacionais.
Os dados
Em 2025, o Salgado Filho recebeu 7,513 milhões de passageiros. Em 2023, ano sem os efeitos da enchente, o terminal registrou a circulação de 7,480 milhões.
Foram 67.313 voos, entre chegadas e partidas. O número representa uma fatia de quase 93% do total de 2023 (72.639).
Já no campo das cargas, a queda é de 13%, com o total embarcado e desembarcado chegando a 33.792 toneladas em 2025. Em 2023, foram 38.840 toneladas.
O presidente da Câmara Brasileira de Logística e Infraestrutura (Câmara Log), Paulo Menzel, afirma que a retomada no número de passageiros no mesmo nível do pré-enchente é explicada pelo funcionamento pleno do terminal.
Com a operação normalizada em termos de estrutura, o fluxo começa a voltar ao normal tanto em voos quanto em usuários. Inclusive, Menzel avalia que o patamar atual de recuperação está acima do esperado. No entanto, o especialista reforça que, para um avanço mais consistente em movimentação, é necessária uma conjunção de fatores:
— A questão do fluxo de passageiros depende muito da economia, do mercado nacional e internacional. As pessoas não vão viajar só a passeio. Elas também vão viajar a negócios. E isso depende não só de uma estrutura aeroportuária em condições. Você precisa também ter uma conjuntura nacional, internacional, econômica que propicie um movimento maior.
Turismo
O presidente da Associação das Agências de Viagens do Rio Grande do Sul (Abav-RS), João Augusto Machado, afirma que a recuperação no número de passageiros reflete aquecimento no campo do turismo, tanto de lazer quanto de negócios:
— O turismo está vivendo um momento bastante aquecido. Vejo como o momento mais promissor desde as enchentes de 2024. Os voos estão saindo mais cheios e isso reflete o aumento de passeios, mesmo tendo leve recuo no número de voos. Isso mostra que a taxa de ocupação está alta nas aeronaves, o que certamente está agradando as companhias aéreas.
Machado afirma que os destinos nacionais ainda são os mais procurados no âmbito geral em razão de valores mais acessíveis. O dirigente avalia que o Aeroporto Salgado Filho está atendendo bem à demanda atual.
A Fraport Brasil argumenta que "a recuperação da malha aérea passou pela decisão e readequação de cada companhia aérea, suas estratégias e oportunidades para incremento no número de voos, destinos e frequências". A concessionária ainda afirma que trabalhou em conjunto com as operadoras de voos e o governo do Estado na promoção do turismo no RS.
— Apesar de o primeiro semestre de 2025 ter tido ritmo ainda lento na recuperação, o desempenho foi crescente a partir do período de férias em junho, se estendendo até o final do ano. Como destaque, além da malha doméstica, houve a retomada dos voos internacionais, como para Portugal (TAP) e de rotas sazonais operadas em 2025, como Bariloche (Azul) e Santiago (Sky) — avalia Pedro Navega, gerente de aviação comercial da Fraport, que também menciona o aumento na taxa de ocupação dos voos.
Cargas
Nos últimos anos, o Estado sofreu com problemas internacionais, como a pandemia, e particulares, como a inundação. O último caso atingiu em cheio o Salgado Filho, que teve boa parte de sua estrutura invadida pela mistura de água e lama.
Mesmo passados esses dois episódios, voltar à normalidade é um processo longo, segundo Menzel. No entanto, o especialista em logística reforça que movimentos recentes mostram uma retomada que segue:
— Se você acompanhar os últimos movimentos de 2025 e agora de janeiro de 2026, temos grandes cargueiros chegando a Porto Alegre, abastecendo empresas que aqui operam e levando carga embora. Então, de novo, primeiro vem a infraestrutura e depois a economia que leva lá na frente a resultados. Nós estamos com um ativo chamado Salgado Filho em plena operação. Agora, o mercado precisa se recompor e usar este ativo. E isso leva um tempo.
Menzel também aponta fatos recentes, como o tarifaço dos Estados Unidos e outros ruídos no comércio internacional, como travas a um salto maior do transporte de carga por via aérea. Na avaliação do presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), Claudio Bier, a decisão de Donald Trump foi um dos fatores para o resultado observado em 2025 no terminal aéreo gaúcho.
— Os Estados Unidos são um dos principais destinos da indústria de transformação gaúcha e, pela natureza de maior valor agregado de tais produtos, muitos são enviados pelo modal aéreo. Nesse sentido, as quedas na movimentação de cargas pela via aérea podem ser parcialmente explicadas pela imposição de tarifas norte-americanas aos produtos brasileiros. Especificamente sobre o setor de armas, a queda nas movimentações relaciona-se com a imposição de tarifas dos EUA, uma vez que o setor concentrava suas exportações para o país e foi fortemente afetado pelas tarifas — analisa Bier.
Em 2021, o Salgado Filho inaugurou um novo terminal de cargas. No ano seguinte, entregou a expansão da pista para os atuais 3,2 mil metros. Essa reforma teve como um dos principais objetivos receber aeronaves maiores e volume mais expressivo de cargas.
Segundo a Fraport, embora o volume em peso tenha ficado abaixo ao registrado em 2023, houve crescimento no valor em cargas movimentadas.
"Identificamos, por meio de inteligência de mercado, a oportunidade de mostrarmos às empresas do setor as vantagens da utilização da estrutura do Aeroporto de Porto Alegre para importação e exportação de cargas. As ações contemplam, além da aproximação com o mercado exportador, planos de incentivo e oferta da estrutura do Terminal de Cargas (Teca) Internacional com categoria Triplo A (AAA), no mais alto padrão de qualidade, infraestrutura e tecnologia no setor logístico, com instalações projetadas para oferecer máxima eficiência, segurança e otimização de custos em operações de alta performance, agilidade e confiabilidade na movimentação de mercadorias", comenta.
O especialista Paulo Menzel reforça que é necessário aquecer o setor e a economia como um todo para concretizar o objetivo de receber mais aeronaves e cargas no futuro. Na mesma linha, a Fraport cita a situação do mercado e da economia no resultado observado em 2025.
A Fraport também afirma que o cenário macroeconômico, considerando sazonalidade e reorganizações do mercado, também impactou. A concessionária destaca que o início de 2026 "apresenta cenário promissor, considerando que já registramos seis aeronaves cargueiras levando produtos gaúchos para o Exterior".
Fonte: GZH
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