DIA DA MULHER: Cinco histórias de mulheres que sobreviveram à violência de gênero

Antes de virar estatística, a violência de gênero quase sempre passa por etapas. Começa em frases que parecem ciúme, em perguntas sobre com quem a mulher está falando, em críticas à roupa ou à forma de se comportar. Depois pode virar vigilância, isolamento, ameaça. Em alguns casos, chega à agressão física. Em outros, à morte.

Reprodução


No Rio Grande do Sul, 20 mulheres já foram assassinadas em 2026 em casos investigados como feminicídio. Entre elas estão a bombeira civil Gislaine Beatriz Rodrigues Duarte, morta dentro de casa em Guaíba no dia 3 de janeiro; Letícia Foster Rodrigues, encontrada morta em uma plantação de soja no interior de Canguçu; Josiane Natel Alves, assassinada a facadas na zona Sul de Porto Alegre; Mirella dos Santos da Silva, de 15 anos, morta pelo ex-companheiro em Sapucaia do Sul; e Silvana Germann de Aguiar, registrada como a 20ª vítima do ano, em Cachoeirinha (dados contabilizados até o fechamento dessa edição, em 5 de março de 2026).

Cada um desses nomes marca uma interrupção abrupta de vida. Mulheres com trajetórias, famílias, trabalhos e projetos que foram interrompidos pela violência de gênero. Como mostra a reportagem do jornal gaúcho Correio do Povo composta de quatro matérias: essa e outras três que podem ser acessadas pelos links abaixo:

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As cinco histórias reunidas a seguir mostram outro ponto desse mesmo percurso. São relatos de mulheres que também viveram controle, ameaças, agressões e medo. Histórias que poderiam ter terminado como muitas das que aparecem nas páginas policiais, mas que encontraram algum ponto de ruptura antes do desfecho mais extremo.

Em comum, elas revelam como a violência costuma se instalar de forma gradual, muitas vezes disfarçada de cuidado, proteção ou ciúme. Revelam também as barreiras para sair: medo, dependência financeira, filhos, isolamento e o papel que redes de apoio, colegas, familiares ou instituições podem ter no momento em que a ruptura se torna possível.

As histórias abaixo acompanham ao longo da reportagem. Os nomes foram alterados e alguns detalhes ajustados para preservar as entrevistadas, sem comprometer o sentido dos relatos. Em caso de violência, a orientação é buscar ajuda.

O Ligue 180 funciona 24 horas e encaminha para a rede de proteção. Em situação de emergência, o telefone é 190.

Manuela, 25 anos, vendedora, Região Metropolitana de Porto Alegre

Manuela conheceu o ex-namorado pelas redes sociais em 2024, quando tinha 23 anos. Antes mesmo de se encontrarem pessoalmente, ouviu cobranças que já indicavam ciúme e tentativa de vigilância. “Tu tá conversando com quem?” e “Nem me dá oi” foram frases repetidas durante a primeira semana de conversa, sempre que ela demorava a responder ou ficava online.

Poucos dias depois do primeiro encontro, ela passou a ficar quase todos os dias no apartamento dele. Saía do trabalho e ia direto para lá. Aos poucos, começou a levar roupas e itens pessoais até que, com menos de um mês de relação, decidiu morar junto. A mãe tentou desaconselhar, mas Manuela estava envolvida e via a mudança como sinal de que “dava certo”.

A primeira ruptura veio rápido, a partir de um convite simples: o aniversário da irmã em uma pizzaria. Ele não queria ir e tentou impedir que ela fosse, com ameaça direta de agressão. Manuela foi mesmo assim. No dia seguinte, pegou as coisas e voltou para casa, mas a separação durou pouco. Uma semana depois, após pedidos de desculpa, o casal reatou e voltou a morar junto.

Foi nesse retorno que, segundo ela, o controle se intensificou e ganhou rotina. Ele fiscalizava roupas, exigia acesso ao celular e não aceitava senha. Manuela descreve que “entregar o aparelho” deixou de ser escolha. Quando ela não informava o horário do intervalo no trabalho, o companheiro aparecia onde ela estava. A vigilância se misturava a agressões, como puxões de cabelo e beliscões, inclusive na presença de familiares dele, que, na percepção dela, normalizavam a situação.

A virada ocorreu quando uma colega percebeu marcas e a ajudou a buscar apoio. Manuela registrou ocorrência, descobriu que havia denúncias anteriores e conseguiu medida protetiva. Ela descreve uma mistura de alívio e temor. “Me senti livre, mas com medo também”, diz, ao falar sobre a possibilidade de retaliação. Após a separação, ele ainda tentou contato por mensagens, alternando desculpas e insultos, até o silêncio definitivo.

Renata, 43 anos, serviços gerais e estudante, Região Metropolitana de Porto Alegre

Renata descreve que os sinais apareceram cedo nas palavras e na forma como o companheiro reagia ao que ela vestia. Dez anos mais velho, ele implicava com roupas “um pouco mais curtas” e dizia que ela estaria “se oferecendo”. Renata lembra que, quando surgiam comentários sobre ele ser mulherengo, o companheiro sempre invertia a culpa. “Isso é porque ela queria falar comigo”, dizia. E ela acreditava.

O desgaste verbal abriu espaço para outras violências. Renata relata situações de abandono e humilhação, como quando entrou em trabalho de parto e o companheiro só voltou ao hospital no dia seguinte, depois do nascimento da filha. Em outro episódio, ao ver o sobrinho chegar na casa vizinha, levou um tapa no rosto, como se a presença do familiar fosse motivo de acusação.

Com pouco mais de um ano morando juntos, ela encontrou, entre documentos do companheiro, um boletim de ocorrência registrado pela ex-esposa. O registro relatava agressões anteriores. Renata conta que não reagiu e não contou a ninguém. “Eu tinha pânico de falar com alguém e ele fazer alguma coisa”, afirma. O medo se aprofundou quando ela relata que houve violência sexual dentro de casa, envolvendo uma filha, e ameaças explícitas para impedir denúncia. Segundo ela, a frase era sempre a mesma: se ela procurasse a polícia, ele poderia sair da cadeia, mas elas não “sairiam do cemitério”.

A dependência financeira e a preocupação com as filhas funcionaram como barreiras concretas para a saída. Renata narra tentativas de separação que duravam semanas ou poucos meses. Quando ela conseguia emprego, ele reaparecia com promessas de mudança. Ela voltava, pensando no aluguel, na rotina das crianças e no risco de ficar sem moradia. Nos anos finais, ela relata coerção sexual mesmo quando, para terceiros, o casal se dizia separado.

O gesto decisivo, diz, veio de uma fonte inesperada: o enteado, já adulto, que enxergou a situação e ofereceu apoio. “Tu não vai ficar desamparada”, ele teria dito. Renata conseguiu medida protetiva, mas descreve que o medo permanece, em forma de pânico, travamentos e hipervigilância. O sofrimento, para ela, continua também no cotidiano familiar. As filhas ainda visitam o pai e, em momentos de dificuldade, a responsabilizam pela falta de dinheiro. “E isso me aperta”, diz, chorando.

Carla, 58 anos, serviços gerais, Região Metropolitana de Porto Alegre

Carla passou 25 anos casada com o mesmo homem. Ao reconstruir a história, ela insiste que a violência não foi apenas física e que as palavras moldaram o cotidiano. “Ele usava muito as palavras”, diz. Ofensas como “burra” e “inútil” eram repetidas com frequência, a ponto de ela começar a duvidar de si em decisões simples e em escolhas de vida.

Antes mesmo do casamento, a sogra havia alertado: “Ele não é um bom filho, briga comigo”. Carla acreditou que com ela seria diferente. Não foi. Um episódio que ela lembra com precisão ocorreu quando tentou tirar carteira de motorista e reprovou na baliza. O companheiro transformou o erro em motivo de humilhação e proibiu que ela tentasse de novo, afirmando que não deixaria o carro para ela mesmo que passasse.

Carla conta que chegou a imaginar que a maternidade poderia trazer uma melhora na relação. O que aconteceu foi o contrário. Depois de oito anos de casamento, nasceu a primeira filha, com necessidades específicas de cuidado, e o ambiente em casa se tornou mais tenso. As agressões físicas apareceram, segundo ela, com ciclos ligados ao consumo de álcool e seguidos por pedidos de desculpa e promessas que nunca se confirmavam. “Eu acreditava que fosse mudar.” Não mudou.

Ela relata que, ao tentar proteger a filha pequena em um episódio de agressão, também foi machucada. Procurou o fórum para pedir o divórcio, mas recuou diante de ameaças de morte. Houve um período de aparente melhora, associado à igreja e à interrupção da bebida, e então tudo voltou: ofensas, agressões e um controle que a mantinha presa pela insegurança financeira. Carla diz que não prosseguia com a separação por medo de não conseguir sustentar as filhas sozinha, e por ouvir repetidamente que “a casa era dele” e que ela “não teria para onde ir”.

Nos anos finais, ela descreve a violência como uma combinação de humilhação, medo e coerção. Mesmo dormindo em quartos separados e com ele se relacionando com outra mulher, Carla relata que era pressionada a ter relações sexuais sob ameaça de agressão. A coragem, diz, veio em rede. Colegas de trabalho e mulheres próximas a encorajaram, e as filhas, já maiores, passaram a apoiá-la. O divórcio foi assinado e, anos depois, Carla descreve liberdade. Ela afirma que fala do passado sem sentir a mesma dor, porque deseja que a história funcione como aviso para outras mulheres.

Daniela, 56 anos, empreendedora no RS, infância no interior de Santa Catarina

Daniela diz que aprendeu cedo que casa nem sempre significa proteção. As memórias da infância, no interior de Santa Catarina, são marcadas por gritos, agressões contra a mãe e uma rotina de fuga. Ela e os irmãos se escondiam sob a cama do avô ou corriam para o mato, entre plantações, quando o pai chegava alcoolizado. Em um dos episódios, a mãe desapareceu após uma agressão e vizinhos passaram o dia procurando por ela, temendo o pior. Daniela era pequena, mas lembra da movimentação e do medo.

O terror também vinha das ameaças, que ela diz ter ouvido diretamente. O pai repetia que “filha e mulher envergonham homem” e afirmava que poderia matá-la. Em um Natal, Daniela ouviu que aquele seria o dia em que “não escaparia”. A mãe tentou levá-la para a casa de um padrinho, mas, no caminho, o agressor recuou e ordenou o retorno. “Eu nunca mais senti na vida o medo que eu tinha dele”, resume.

Na pré-adolescência, a violência, segundo ela, assumiu outra forma. Daniela relata assédio e uma tentativa de abuso dentro de casa, além de vigilância e punições. Ela diz que evitava ficar sozinha, que se privava de situações banais por medo e que foi silenciada por ameaças. A mãe percebeu o estado da filha e chegou a confrontar o agressor, mas a partir daí Daniela passou a ser empurrada para trabalhos na roça e a viver sob controle mais rígido.

A escola também não foi refúgio. Daniela conta que abandonou os estudos ainda criança, sem orientação e sem rede de proteção. A ruptura ocorreu na adolescência, quando ela e a mãe conseguiram trabalho fora do ambiente rural e planejaram a saída. A fuga foi feita à noite, a pé, por trilhas no mato, atravessando rios, até a casa de uma conhecida que já sabia das agressões.

A vida adulta foi construída em recomeços, deslocamentos e busca de autonomia. No Rio Grande do Sul, Daniela abriu o próprio salão de beleza, enfrentou dificuldades financeiras e diz que aprendeu a identificar sinais de repetição em relacionamentos. Terminou um noivado após uma agressão, por medo de reviver o ciclo. Hoje, relata um relacionamento estável e respeitoso, e reconhece que carrega feridas. “Se mexe na ferida, ela sangra”, afirma, ao falar da relação com a mãe. Ainda assim, ela descreve a própria trajetória como reconstrução e insiste que contar a história é uma forma de avisar que a violência pode ser rompida.

Vera, 64 anos, aposentada, Região Metropolitana de Porto Alegre

Vera conheceu o ex-companheiro aos 18 anos e permaneceu com ele por cerca de uma década. O casal teve dois filhos e nunca oficializou a união, mas morava junto no apartamento dele. A separação ocorreu quando Vera descobriu uma traição. Ainda assim, ela permaneceu no imóvel com os filhos porque não tinha para onde ir. O ex se mudou para outro estado e voltava ao Rio Grande do Sul de tempos em tempos, hospedando-se no apartamento.

Por mais de 30 anos, Vera descreve que a convivência funcionou em distância e acordos silenciosos. “Cada um no seu quadrado”, define. Ela afirma que a relação era respeitosa e que nunca havia se sentido ameaçada até um retorno específico, em 2024, quando ele chegou alcoolizado. Foi nessa noite que, segundo o relato dela, houve uma tentativa de abuso. Um dos filhos quis intervir, mas Vera pediu que não se envolvesse, por ser “pai”.

Vera diz que conseguiu se defender e que, pouco depois, ouviu a frase que mudou seu rumo: “Os incomodados que se retirem”. Ela tomou a decisão na hora. “Eu vou me mudar.” O ex pediu desculpas depois, mas ela afirma que a confiança já havia sido quebrada. O filho convenceu o pai a ir embora, e Vera começou uma busca por um lugar para viver.

Sem alternativa viável, ela procurou acolhimento e foi atendida por uma assistente social em uma instituição de longa permanência para idosos. Vera se mudou em menos de um mês e conta que entrou já com um pacto consigo: adaptar-se ao lugar, construir rotina e preservar autonomia. No dia a dia, cuida do jardim, conversa com outras pessoas e mantém contato frequente com os filhos, que ligam todos os dias e a visitam.

Ela afirma que não pretende voltar para o apartamento antigo e que também não há perspectiva de viver com os filhos, porque cada um reorganizou a própria vida após a mudança dela. Vera descreve que a saída, apesar do sofrimento, produziu um rearranjo familiar. E explica por que decidiu falar agora, mesmo sendo reservada: “Como é uma data importante, como tem tantos feminicídios, tantas agressões contra a mulher… por isso eu resolvi falar.”


Fonte: Correio do Povo, acesse aqui a reportagem


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