Ricardo Piquet, gestor cultural e diretor-geral do Instituto de Desenvolvimento e Gestão, que lidera a administração do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, serpa o primeiro brasileiro a ser premiado pelo Science Museum Group - principal grupo de museus de ciência e inovação do mundo, sediado no Reino Unido.
Veja os detalhes neste post.
| Ruy Rezende Arquitetura |
Piquet vai receber o título de Fellow que reconhece cientistas e indivíduos que transformaram o mundo. No caso do brasileiro, ele será reconhecido também pelo seu pioneirismo na liderança da construção de uma articulação internacional em torno do conceito de museus orientados para o futuro, o FORMS (Future-Oriented Museums), uma aliança global de líderes culturais comprometidos com o objetivo de pensar, repensar e descolonizar o futuro.
Em 150 anos de fundação e 17 de criação do conselho, é a primeira vez que um brasileiro entra na lista de fellows do Science Museum Group.
Segundo Tim Laurence, presidente do Science Museum Group, o brasileiro receberá o prêmio por ser um exemplo de “dedicação à ciência e pelo seu trabalho de incentivar e inspirar soluções para as mudanças climáticas por meio do diálogo e da inovação, utilizando o pensamento crítico como uma ferramenta vital para compreender as nossas origens, o presente e o futuro”.
A entrega do prêmio será em Londres, em 13 de maio. Ricardo Piquet lidera o Museu do Amanhã desde a inauguração, em 2015.
Museus recém-criados declararam inspiração direta no Museu do Amanhã, como o Futurium, em Berlim, o UNLive Museum, em Copenhague, e o Climate Museum, em Nova Iorque. Acompanhe a entrevista:
Qual é o significado desse prêmio?
Ricardo Piquet: Esse reconhecimento do Science Museum Group tem um significado que ultrapassa a dimensão individual. Ele representa o reconhecimento de uma inovação na gestão cultural que nasceu no Brasil e ganhou escala internacional. O Museu do Amanhã foi concebido, há dez anos, como um museu que estrutura sua narrativa a partir de perguntas sobre o futuro. Isso era, e continua sendo, disruptivo. Falar de futuro de forma estruturada, científica e acessível, não é trivial. Há dez anos, era ainda menos. Esse prêmio reconhece exatamente essa inflexão: a consolidação de um modelo de museu que retrata o passado, debate o presente e projeta cenários futuros. Um museu que se posiciona como espaço de reflexão estratégica da sociedade. Num momento em que o mundo discute clima, inteligência artificial, desigualdade e novos pactos sociais, esse prêmio sinaliza que o gestor brasileiro brasileiro está contribuindo verdadeiramente para o debate global sobre como os museus podem ser plataformas ativas de futuro.
O que, na sua avaliação, levou a gestão do museu a se destacar internacionalmente?
R: O que levou a esse reconhecimento foi, sobretudo, a inovação na gestão e na concepção institucional do museu. O IDG liderou a construção de uma articulação internacional em torno do conceito de museus orientados para o futuro, o FORMS (Future-Oriented Museums), uma aliança global de líderes culturais comprometidos com o objetivo de pensar, repensar e descolonizar o futuro, criando uma rede para imaginar diferentes caminhos para a cultura e a ciência ao redor do mundo. Museus recém-criados declararam inspiração direta no Museu do Amanhã, como o Futurium, em Berlim. Plataformas como o UNLive Museum, em Copenhague, e o Climate Museum, em Nova Iorque, que dialogam com essa lógica de museu como espaço de debate sobre futuros possíveis. E instituições tradicionais, como o Miraikan, no Japão, e o próprio Science Museum de Londres, incorporaram essa abordagem a ponto de o Science Museum estar desenvolvendo uma nova ala chamada “Ala do Amanhã”, em referência conceitual ao nosso museu. Isso demonstra que o conceito do Museu do Amanhã deixou de ser uma experiência brasileira para se tornar um paradigma em discussão no campo museológico internacional. O reconhecimento da UNESCO e do ICOM (Conselho Internacional de Museus) confirma isso. Enquanto gestor do Museu e do IDG há mais de 10 anos, vejo esse reconhecimento como consequência de um trabalho consistente, que enxerga a capacidade de articulação internacional e de influência conceitual do Museu do Amanhã no cenário global. Em 150 anos de fundação e 17 de criação do conselho, é a primeira vez que um brasileiro entra na lista de fellows do Science Museum Group.
Você mudou a gestão do museu há 1 ano. Quais os principais desafios para os próximos anos?
R: O desafio agora é aprofundar essa liderança intelectual e institucional. Em 2025, fomos anfitriões do Earth Shot Prize, premiação criada pela Família Real do Reino Unido com o objetivo de incentivar novas ideias para solucionar problemas ambientais. David Fain, CEO do prêmio, comentou que, pela primeira vez, a premiação não tinha apenas uma casa, mas um parceiro com um propósito em comum. O Museu do Amanhã precisa continuar sendo este espaço de grandes debates, especialmente num contexto em que o mundo discute transição climática, inteligência artificial e novos pactos sociais, e para isso, imagino três frentes de atuação nos próximos anos: a primeira é consolidar o museu como plataforma internacional de diálogo. Isso envolve ampliar a rede FORMS, fortalecer a articulação com UNESCO, ICOM e grandes museus globais, e posicionar o Brasil como ator relevante na agenda de futuro. A segunda é garantir que a inovação continue estruturante, inclusive na gestão. O reconhecimento internacional está diretamente ligado à nossa capacidade de combinar governança sólida, sustentabilidade financeira e ousadia programática. A terceira é manter o caráter disruptivo do museu. Falar de futuro ainda é desafiador porque implica falar de incerteza, riscos e escolhas coletivas. Nosso compromisso é preservar essa identidade. O objetivo, nos próximos anos, é consolidar o Museu do Amanhã como um centro internacional de pensamento sobre futuros possíveis.
Fonte: Estadão
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