Apesar de muita gente não ter entendido O Agente Secreto, ou ter achado um filme chato, longo e arrastado, o fato é que a obra de Kleber Mendonça Filho já ganhou mais de 60 prêmios internacionais e é a produção brasileira que mais longe chegou em termos de crítica, repercussão e premiação nos últimos tempos. A premiação do Oscar não é a mais importante. É um prêmio da indústria do cinema, e é certamente o título mais famoso — e que dará uma grife e tanto para o Brasil, caso sejamos vitoriosos. Mas é essencial salientar que, dentro da lista das 60 conquistas que citei acima, há condecorações que valorizam muito mais a produção estrelada por Wagner Moura — como Cannes, Globo de Ouro, Critics Choice e o Spirit Awards.
O Agente Secreto é um filmaço? Não. O problema é que há muitos anos não se fazem filmaços. É só pegar a lista dos ganhadores da categoria de Melhor Filme na história, relembrar as obras-primas que concorreram (saindo ou não vitoriosas) e ver que eram produções de outro quilate. Papo de velho? Pode até ser, mas se pegarmos E o Vento Levou, Rebecca, Casablanca, A Malvada, Sinfonia de Paris e O Maior Espetáculo da Terra e colocarmos para concorrer com os filmes dos últimos cinco anos do Oscar, esses títulos vencem de lavada. E isso que só citei alguns dos vitoriosos dos anos 1930 até os anos 1950. Obviamente, é preciso descontar a limitação de efeitos, fotografia, montagem, linguagem e até a temática que eram possíveis há quase 100 anos.
E se avançarmos mais um pouco no tempo, teremos A Ponte do Rio Kwai, Se Meu Apartamento Falasse, Lawrence da Arábia, No Calor da Noite, A Noviça Rebelde, Operação França, O Poderoso Chefão, Golpe de Mestre, Um Estranho no Ninho... Meu Deus, qualquer um dá de relho nesses filmes modernosos. E sem falar em Ben-Hur, que em 1959 ganhou 11 estatuetas — mesma marca recordista de Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003).
Parei. Não vou entrar nos anos 1980, senão eu poderia soterrar vocês de exemplos com Gandhi, Kramer vs. Kramer, Platoon, Entre Dois Amores... Entenderam a diferença da robustez dos filmes? A estirpe é outra! Não se fazem mais obras grandiosas como essas, contundentes e carregadas de emoção, diálogos bem escritos e atuações fantásticas.
Há ainda grandes atores e atrizes, mas em atuações pontuais. São episódicos. Vamos à lista deste ano, pois eu acho que o Brasil tem chance justamente pela mediocridade dos seus concorrentes.
Pecadores é o recordista de indicações e é, sim, um filme impactante e diferente. Criativo e bonito, mistura muitos gêneros e estilos, surpreendendo o espectador. E olha que há muito tempo larguei de ver filmes de "terror". Mas o terror aqui é tratado de outra forma. É, assim, o grande concorrente que pode tirar os prêmios de O Agente Secreto.
Uma Batalha Após a Outra tem uma levada diferente, tem road movie e conspiração misturados, e um Sean Penn com a mão no prêmio de Ator Coadjuvante — merecido. Leonardo DiCaprio confirma a tese que cunhei há muitas décadas: é bom ator quando tem um grande diretor por trás (Scorsese, Tarantino e, aqui, Paul Thomas Anderson). É uma obra-prima inesquecível? Não.
Bugonia (estranho, mas bom), Frankenstein (decepção), Hamnet (esperava mais), Marty Supreme (esperava bem mais). Todos filmes acima da média do que tudo o que é despejado nos streamings na vida (e no cinema também, infelizmente), mas sem bala na agulha para serem considerados O MELHOR FILME DO ANO. Vocês têm consciência do que é o peso desse título?
O norueguês Valor Sentimental é um filme diferenciado, e talvez fique no pódio ao lado dos ganhadores. Merece muitos louros. No entanto, não tem a mesma magnitude de Pecadores e O Agente Secreto.
F1??? Um filme menor, de ação sem talento, sem arte, extremamente descartável e "esquecível". Ninguém entendeu a sua indicação. Sonhos de Trem é um filme muito bonito graças ao brasileiro Adolpho Veloso, que vai trazer, sim, a estatueta de Melhor Fotografia. E pronto: desta forma está feita a justiça.
Com o conflito no Oriente Médio, creio que o Brasil leva a categoria de Filme Internacional, pois Foi Apenas um Acidente é um grande filme que poderia tirar o nosso título. Mas os iranianos perderam força neste momento. A menos que a Academia seja tão rebelde e irreverente querendo passar recados políticos a esta altura dos acontecimentos.
Sobre Wagner
O baiano, na sua atuação contida, despertou críticas de muita gente que só viu o filme quando ele chegou agora em março na Netflix. A atuação contida, quase apática, é a técnica de muitos outros grandes intérpretes que, como ele, já provaram que podem desempenhar outros papéis. Na verdade, Wagner está sublime. E tem chance na categoria: DiCaprio foi indicado sete vezes e já ganhou em 2016 por O Regresso (dirigido pelo grande cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, confirmando a minha já citada tese). Seria um exagero que ele ganhasse de novo.
Michael B. Jordan está com a bola toda, mas é jovem ainda, certamente será indicado mais vezes e, o principal: sua atuação é correta, simplória, sem grande brilho.
Timothée Chalamet, então, nem se fala. Ele está muito bem num filme que é mediano. Mas tem muito chão pela frente ainda. Tem apenas 30 anos.
Ethan Hawke é bom ator, mas é o azarão, pois seu filme Blue Moon, no qual ele interpreta um célebre compositor, não teve nenhuma repercussão.
Direção de Elenco
Se tudo der errado, aqui está a nossa chance. É bastante improvável, mas o fato de o filme do Kleber ter a participação de atores amadores — gente simples do povo que foi recrutada e treinada, recebendo orientações do cineasta pernambucano e também do diretor de elenco Gabriel Domingues — pode ajudar na força desta premiação. Neste caso, Gabriel subirá ao palco nessa categoria que, pela primeira vez, foi inserida na lista do Oscar. Seria um duplo fato histórico, para o Brasil e para a cerimônia.
Enfim, a premiação é da indústria, as piadas são sem graça e Trump levará várias alfinetadas. Só esperamos que não seja desnecessariamente longa e traga muita emoção, homenagens bacanas, apresentações musicais memoráveis e outras boas surpresas. Já que os filmes não são grande coisa, que a cerimônia seja inesquecível.
Como e onde assistir ao Oscar 2026
No Brasil, o público poderá assistir à cerimônia completa e na íntegra pelo canal TNT e pelo streaming Max. Além das transmissões oficiais, cinemas, bares e espaços culturais em diversas cidades do país também organizam exibições em telões, transformando a noite do Oscar em um grande encontro de fãs de cinema.
Confira aqui como assistir os filmes indicados antes da premiação
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Renato Martins, jornalista, radialista, cinéfilo e professor, editor da Rede #AtitudePositiva e criador do projeto mulimídia #CenadeCinema.
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