A cientista gaúcha que atua em empresa pioneira no Brasil no uso de impressoras 3D para fazer medicamentos
Neste post você vai conhecer um pouco mais sobre a gaúcha Júlia Leão, de 28 anos, que integra a formula3D, empresa pioneira no Brasil no uso de impressoras 3D para produzir medicamentos. Segundo a cientista, "conseguimos reduzir em quase 90% o custo de alguns medicamentos".
Resumo do que você vai ler aqui:
- Júlia Leão, 28 anos, é cientista e empresária à frente da formula3D, pioneira em impressão 3D de medicamentos no Brasil.
- A tecnologia permite produzir remédios personalizados, com doses precisas e custo até 90% menor que o tradicional.
- O método facilita o acesso a medicamentos para pacientes pediátricos, geriátricos e oncológicos, reduzindo erros de dosagem.
- Júlia venceu o Prêmio 3M de Mulheres na Ciência e defende mais incentivo e valorização para mulheres na área científica.
| Arquivo Pessoal |
Com apenas 28 anos, a gaúcha Júlia Leão já conquistou os títulos de cientista e empresária. Ambas as funções caminham juntas no trabalho que a jovem realiza na empresa formula3D, uma das pioneiras no Brasil no uso de impressoras 3D para replicar medicamentos.
A iniciativa rendeu à pesquisadora o Prêmio 3M de Mulheres na Ciência. Nesta edição, a premiação foi dedicada às mulheres na manufatura e na indústria e destaca o papel estratégico da presença feminina na inovação industrial.
A startup nasceu incubada junto à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde Júlia e suas duas sócias estudam, e vem se expandindo desde então. Com a nova tecnologia, a expectativa da cientista é que seja possível democratizar o acesso a medicamentos, com doses personalizadas e custo mais baixo do que o de um remédio tradicional.
Em entrevista a Zero Hora, a jovem natural de Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo, fala sobre os desafios de implementar a tecnologia no Brasil, a redução de custos com a impressão 3D de medicamentos e a importância de incentivar mais mulheres na ciência.
Confira entrevista com Júlia Leão
Trabalhava em farmácia de manipulação veterinária e me apaixonei por essa área. Queria muito ingressar em um mestrado em que continuasse desenvolvendo medicamentos de uso veterinário. Então, acabei encontrando meu orientador, curiosamente em um curso, no qual ele comentou que estavam implementando essa linha de pesquisa junto a um professor que estava trazendo uma tecnologia nova para o país: a impressão 3D de medicamentos.
Não conhecia nada sobre isso, caí de paraquedas, mas sabia que essa tecnologia era bastante promissora para produzir medicamentos personalizados – que era o grande problema que a gente vivia na farmácia de manipulação, especialmente pensando nos cães.
Você poderia explicar como exatamente funciona uma impressão 3D de medicamento?
Sim. É o mesmo processo de uma impressora normal, mas, em vez de um filamento, usamos um gel que mistura o princípio ativo com outros componentes. Essa mistura é colocada em uma seringa dentro da impressora, e, com o auxílio de um software, desenhamos o formato do medicamento, o que também define a dose final.
A impressora então reproduz esse desenho camada por camada, formando um produto que se assemelha a uma “gominha”. Isso facilita a adesão ao tratamento, tornando o medicamento mais fácil de engolir e mais atrativo para pacientes pediátricos e geriátricos.
"Hoje, um a cada 10 pacientes sofre de algum erro de medicação, que poderia ser evitado por um processo automatizado e mais seguro, como a tecnologia de impressão 3D", diz Júlia.
Hoje a personalização também é possível em medicamentos manipulados. Qual a diferença?
Essa tecnologia tem uma grande vantagem: produzir medicamentos personalizados com alta precisão. Automatizamos um processo que hoje é feito de forma manual, por exemplo, em uma farmácia de manipulação.
Conseguimos produzir, com o mesmo material impresso, de um a dois miligramas. Vai ter paciente que precisa de dois miligramas, outro que precisa de um, outro que precisa de 10. Então, de uma forma muito mais precisa e rápida, conseguimos modificar atributos que não era possível modificar tão facilmente com as tecnologias existentes.
Essa tecnologia pode ser usada para produzir em massa medicamentos tradicionais, mas vimos que a movimentação está indo para o outro lado, que é produzir medicamentos personalizados, porque o modelo de produção atual invisibiliza cerca de um terço da população, que não tem acesso a medicamentos essenciais para os seus tratamentos.
Qual é o perfil desses pacientes?
Se encaixam pacientes que precisam de ajuste fino de dose. Não temos paracetamol de 10, 20, 30, 40, 50, 60 miligramas. Então, para chegar a essas doses intermediárias para um paciente pediátrico, é preciso partir comprimido, diluir, usar uma solução que também é administrada de forma manual.
Vemos uma grande potencialidade desta tecnologia para atender as pessoas, como pacientes oncológicos e pacientes geriátricos que fazem uso de sondas, porque hoje a maior parte dos medicamentos não foi desenvolvida pensando na administração por sonda.
Dentro desse contexto, quando você abriu a empresa?
Entrei no mestrado em 2021 e acabei encontrando outras duas colegas tão inquietas quanto eu, que viam um grande potencial em transformar a pesquisa em produto. Em 2022, pedimos ajuda para os nossos orientadores, e eles toparam, porque, na época, nós éramos três bolsistas de pós-graduação, então não tínhamos dinheiro para abrir uma empresa.
A empresa foi formalizada oficialmente em 2024, porque, até ali, foi uma jornada de aprendizado muito intensa, já que a academia é muito diferente do mercado. Não é tão simples, porque o que pensava que deveria ser não é necessariamente o que o mercado quer. No mesmo ano, começamos a concorrer a alguns editais de fomento do governo para captar recursos e fazer mais pesquisas.
Então, a formula3D começou incubada na UFRGS?
Sim. Em 2023, participamos da Maratona de Empreendedorismo da UFRGS. Passamos a refletir sobre o que é problema e o que é solução para começar a estruturar a formula3D de fato. Depois, pré-incubamos em uma incubadora da UFRGS, a IMZ, e foi aí que começamos a imergir nesse mundo startupeiro, participando de batalhas, conhecendo editais e outras oportunidades.
Participamos do primeiro edital, o Conecta Startup Brasil, no qual fomos um dos destaques da edição. Fomos até o MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) apresentar o case da formula3D. Foi muito legal.
Depois, conhecemos a Starts, que é a incubadora do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, e hoje estamos incubadas tanto no hospital quanto na Hestia, que é outra incubadora da UFRGS. Cada uma nos dá visões diferentes do negócio.
Como tem sido? A empresa tem crescido?
Foi muito desafiador. Levamos um tempo conversando com farmacêuticos, hospitais e farmácias para entender qual era o problema que eles viviam e como podíamos solucionar isso com o que tínhamos.
Em 2024, nos aproximamos do time da farmácia semi-industrial do Hospital de Clínicas e, no início do ano passado, fechamos uma parceria. Essa foi a primeira porta que se abriu para nós: testar um MVP (Produto Mínimo Viável, a versão mais simples e funcional de um produto), pela primeira vez, no local onde pretendemos vender a solução.
Passamos um ano esperando a aprovação no comitê de ética e na Plataforma Brasil para iniciar uma pesquisa clínica no hospital. Neste momento, estamos implementando a tecnologia dentro da farmácia semi-industrial do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
A venda será principalmente para hospitais e instituições de saúde, e não para o paciente?
Isso. Hoje, não temos como objetivo vender para o consumidor final. Ensinamos as pessoas a implementarem a tecnologia em sua rotina, principalmente em farmácias de manipulação, hospitais e centros de pesquisa, porque essa é a forma mais fácil que encontramos, neste momento, de ingressar em um mercado que ainda não existe.
Nosso sonho, no futuro, é vender a seringuinha pronta para que a farmácia ou o hospital apenas comprem e produzam o medicamento. Mas, devido à barreira de conhecimento que ainda enfrentamos hoje, demos alguns passos para trás e entendemos que, primeiro, precisamos educar o mercado.
Então, a meta é criar um mercado e construir credibilidade, um passinho de cada vez, para chegarmos ao produto final e, quem sabe, no futuro, também ao consumidor final.
Em relação a custos, qual é a estimativa de valor desse produto?
Hoje, o custo mais caro para implementar a tecnologia é da impressora, que pode variar de R$ 10 mil a R$ 300 mil, dependendo do modelo e da adequação à rotina de cada hospital e do quanto se deseja investir. Atualmente, trabalhamos com um equipamento de um parceiro que custa, em média, R$ 40 mil, que é suficiente com o que desenvolvemos. E as formulações, já temos alguns cases de alguns medicamentos em que conseguimos diminuir quase 90% o custo de alguns medicamento.
Para você produzir um comprimido, ele não tem só o pó do princípio ativo, vai outras coisas para encher aquele molde e comprimi-lo. Já na formulação que desenvolvemos, são necessários, no mínimo, três componentes: água, um polímero que forma o gel e o princípio ativo. Trabalhamos com polímeros baratos, pensando em acessibilidade, mas que são os mesmos utilizados pela indústria farmacêutica.
Com a simplicidade do processo, conseguimos diminuir esse custo, pois não há necessidade de preencher moldes ou investir tanto em equipamentos e recipientes, por exemplo.
Você pode me dar um exemplo de diferença de preço com essa tecnologia?
Nós trabalhamos com um medicamento que se chama pimobendan. Ele é um medicamento de uso exclusivo veterinário e, hoje, uma unidade de comprimido de 5 miligramas dele custa mais ou menos R$ 8,60. A caixa, para um mês de tratamento, custa mais ou menos R$ 460. Os comprimidos que desenvolvi, que também testamos na população-alvo, custam menos de R$ 0,10 a unidade.
É bem impactante, mas nós conseguimos chegar nessa redução de custo. Nas faixas que nós já alcançamos, as reduções foram de, no mínimo, 30% do custo. Mas, mesmo quando o preço fica similar, nós ainda temos a grande vantagem da precisão.
Hoje, um a cada 10 pacientes sofre de algum erro de medicação, erro que poderia ser evitado por um processo automatizado e mais seguro, como a tecnologia de impressão 3D.
A meta é criar um mercado e construir credibilidade, um passinho de cada vez, para chegarmos ao produto final e, quem sabe, no futuro, também ao consumidor final.
Erros de medicação seriam o quê?
Superdosagem, administrar o medicamento na hora errada, com o formato errado. São vários erros. Um caso clássico é triturar um comprimido, diluí-lo em água para administrar na sonda e, quando vai sugar esse comprimido, não se sabe se foi sugada a quantidade correta para administrar nesse paciente.
Hoje temos alguns dos modelos que nós desenvolvemos que são feitos para administrar em pacientes com sonda, que é um dos casos que nós estamos implementando no Clínicas. Então, é um comprimido que se dissolve completamente em água, não havendo risco de obstruir a sonda do paciente nem de sobrar alguma partícula.
Você foi uma das vencedoras do Prêmio 3M, voltado para mulheres cientistas. Muitas mulheres ainda sentem dificuldade de se imaginarem e se reconhecerem como cientistas. Como você conquistou confiança para se aproximar dessa área?
Ainda é um ambiente bastante masculino, mas sempre tive muitas mulheres desta área me motivando a seguir na carreira. Dependendo do lugar em que você apresenta o seu trabalho ou com quem conversa, infelizmente, você é descredibilizada por ser mulher, por ser jovem, enfim. Nós sentimos isso na pele sempre com a formula3D, em reuniões de negócio.
Então, é difícil, mas o sonho de ver isso sair do papel – sair apenas da pesquisa publicada para, de fato, mudar a vida de um paciente – é o que nos motiva a continuar.
Qual é a relevância desse crescimento de premiações e editais voltados para cientistas mulheres?
Nos abre portas que talvez não fossem abertas tão facilmente. É muito importante ter esse tipo de iniciativa, porque ainda são muito poucas. Poderia haver mais, e poderiam ser mais valorizadas.
Estamos empreendendo desde 2022, e lembro que, nos editais em que nós nos inscrevemos no começo, não havia tantos critérios que valorizassem mulheres no time, pessoas negras, LGBT+, etc.
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