Um estudo investiga a relação entre micro e nanoplásticos e os níveis de doenças hepáticas no fígado humano. Desenvolvido por pesquisadores do Centro de Hepatologia Ambiental, situado no Parque Científico da Universidade de Plymouth, na Inglaterra, a pesquisa tem chamado a atenção e será tema de um documentário de uma hora de duração da BBC, que recentemente gravou durante dois dias com a equipe envolvida no trabalho.
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Desenvolvido por 13 pesquisadores, o estudo monitora os níveis de plástico no sangue de 16 pacientes do Hospital Derriford, em Plymouth. Tratam-se de pessoas que recebem de forma regular refeições mantidas em recipientes plásticos e aquecidas no forno micro-ondas. A investigação fatia em 3D pequenas amostras do fígado desses pacientes e procura partículas de plástico no órgão.
A gaúcha Paula Boeira, de 37 anos, integra a equipe de pesquisadores. Natural de Caxias do Sul, na Serra, a biomédica formada pela Feevale, em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos, atualmente cursa pós-doutorado na Inglaterra, onde vive há nove anos. Em agosto de 2025, o Centro de Hepatologia Ambiental foi criado.
— Só usamos amostras humanas, não fazemos testes em animais. Somos o único centro no mundo estudando isso — afirma Paula, que foi a primeira pesquisadora contratada para trabalhar no local.
Pesquisadores do Centro de Hepatologia Ambiental. Paula Boeira é a última à direita (foto arquivo pessoal):
A pesquisa ainda pretende comparar os fígados dos pacientes estudados com amostras preservadas de 1850, quando o plástico ainda não era empregado em escala industrial. Para obter essas amostras antigas, os pesquisadores terão a colaboração de um museu de Viena, na Áustria, que preserva o material.
— Temos dois estudos: um com os pacientes no hospital que recebem diariamente comida de micro-ondas (em embalagens plásticas) e outro com pessoas saudáveis que receberão a comida da mesma maneira para detectar no sangue o quanto de plástico está saindo — detalha.
A pesquisadora conta que uma repórter da BBC será uma das pessoas saudáveis a serem monitoradas. Conforme Paula, os resultados ainda são preliminares, mas a pesquisa deverá posteriormente pleitear publicação dos resultados na revista Nature — principal publicação científica multidisciplinar do mundo.
Embora a pesquisa ainda esteja em estágios iniciais, já há evidências da presença desse material no fígado do corpo humano.
— O que a gente viu no fígado quando são partículas menores (nanoplásticos) é que entram nas células do órgão e não conseguem sair. Algumas partículas maiores conseguem sair pela parte biliar. As menores, e se têm formato irregular, ficam dentro do fígado. A minha análise foi por 48 horas. O que vimos foi que alguns plásticos são mais tóxicos que outros — compartilha.
A gaúcha menciona que houve um aumento de 400% nos casos de doenças hepáticas no Reino Unido desde a década de 1970. Porém, não foram registrados aumentos similares relacionados ao alcoolismo ou à obesidade da população, causas mais recorrentes de males hepáticos.
— O álcool, a obesidade e a Hepatite C não explicam por que a mortalidade de doença hepática continua tão alta. Fica a questão do que está causando tanto aumento da mortalidade. Até no Brasil, uma em cada 33 mortes é causada por doenças hepáticas. A gente acredita que tenha outro fator que ainda ninguém achou. Uma hipótese é o acúmulo de plásticos. Como o fígado filtra o sangue, lida com vírus e qualquer coisa externa, faz sentido que seja atacado pelos poluentes ambientais — diz.
Paula explica que qualquer mudança de temperatura no plástico libera bilhões de partículas desse material. E é o que acontece quando um alimento está no micro-ondas em recipientes desse tipo.
"Só colocar a comida por três minutos no micro-ondas libera 2 bilhões de partículas de plástico. É preciso evitar o aquecimento de comida em plástico e diminuir esse material dentro de casa", aforma Paula.
A pesquisadora comenta que o estudo ainda não pode recomendar algum tipo de tratamento específico para quem tiver a confirmação de partículas de plástico em alguma parte do corpo. Porém, vêm sendo estudados o uso de albumina intravenosa e do carvão ativado para auxiliar no tratamento de pacientes que já possuem alguma doença no órgão.
Questionada sobre o tema, a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) ressaltou, por meio de nota (leia a íntegra abaixo), que "não há comprovações científicas o suficiente que atestem os efeitos danosos dos microplásticos no organismo humano" e que "todos os produtos e embalagens plásticas passam por regulamentações" de agências reguladoras.
Segundo Paula, o impacto ainda é algo a que "temos muito a descobrir".
— Pesquisar o quanto o nosso ambiente, a poluição e o plástico interferem na saúde humana, é algo que está começando agora. A gente produz 400 milhões de toneladas de plástico por ano no mundo. É preciso tentar reduzir (embalagens plásticas) nos cosméticos, shampoos, condicionadores, pastas de dente. Quando pensamos em tudo de plástico que nos expomos diariamente é assustador. Com certeza, a nossa pesquisa pode mudar muita coisa — observa.
O que diz a Abiplast
A Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) divulgou a nota abaixo sobre as manifestações da pesquisadora em relação às embalagens plásticas. Por nota, a entidade encaminhou a seguinte manifestação:
"A Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) vem manifestar sua posição acerca do tema e apresentar informações pertinentes.
É válido mencionar que não há comprovações científicas o suficiente que atestem os efeitos danosos dos microplásticos no organismo humano. Ressaltamos, ainda, que todos os produtos e embalagens plásticas passam por regulamentações e os benefícios da utilização desse material para a saúde humana são inúmeros, como as próteses, stents, seringas descartáveis, bolsas de sangue e de soro, DIUs (dispositivos intrauterinos), entre outros.
A fabricação de embalagens alimentícias, tanto para acondicionar alimentos, quanto bebidas, também possuem regulações e normas específicas publicadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), as quais devem ser seguidas pelas empresas do setor, e estão em sinergia com as legislações internacionais.
A Abiplast reforça, portanto, que alarmar a sociedade não contribui para a solução de um tema de grande complexidade, que demanda ações efetivas para ampliar a eficiência da gestão de resíduos sólidos urbanos. Em um país como o Brasil, onde em torno de 25% dos municípios ainda não possuem iniciativas de coleta seletiva e 39% dos resíduos sólidos coletados têm destinação inadequada, é fundamental fortalecer políticas públicas, infraestrutura e iniciativas de educação ambiental capazes de minimizar os impactos negativos decorrentes das atividades humanas.
A Abiplast acredita no debate sério e preciso, baseado em estudos concluídos e evidências consolidadas, para que se possa promover um diálogo propositivo sobre a correta utilização do plástico e todos os benefícios que o material trouxe e continua trazendo para a sociedade. Nesse contexto, é importante considerar que pesquisas ainda em estágio inicial demandam aprofundamento e validação científica antes que seus resultados sejam tratados como conclusivos. A própria reportagem destaca que o estudo mencionado ainda está em fase inicial. O setor plástico, por sua vez, tem sido protagonista em ações voltadas à promoção da economia circular, com investimentos contínuos em tecnologia, sustentabilidade e inovação.
Com isso, aproveitamos para compartilhar também o E-book Mitos e Verdades sobre o Plástico, publicado pelo Movimento Plástico Transforma, que aborda e esclarece as questões importantes."
Fonte: GZH
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