Um incômodo acompanha a curadora Izis Abreu desde a graduação e o mestrado em artes visuais: a invisibilização e desvalorização das expressões artísticas de pessoas negras. Fruto dessa inquietação, a plataforma Oríkì – Arte Afrodiaspórica será lançada em Porto Alegre como espaço de articulação entre artistas, pesquisadores e instituições.
| Guilherme Santos/PMPA |
Viabilizada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, a plataforma colaborativa se inspira no termo iorubá oríkì, ligado à evocação da memória, da ancestralidade e das qualidades de uma pessoa ou comunidade por meio da oralidade. O projeto será apresentado no dia 19 de maio, às 18h30, no Espaço Força e Luz (foto acima), em evento gratuito com apresentações de Fayola Ferreira, Nina Fola e Sambahêa, além da inauguração da mostra Indumentárias Ancestrais. A programação de lançamento inclui um seminário, nos dias 20 e 21 de maio.
“Ao longo da minha trajetória em museus, pesquisa e curadoria, percebi como artistas, pesquisadores e produções negras ainda aparecem de forma muito fragmentada ou associadas apenas a determinados recortes temáticos, muitas vezes vinculados exclusivamente à violência e à escravização”, reflete Abreu, que em 2022, ao lado de Igor Simões, foi curadora da exposição Presença Negra no MARGS, um marco das reflexões sobre representação e representatividade racial nas artes visuais no estado.
Obra da artista Virgínia Di Lauro. Foto: Oríkì / Divulgação
O campo da arte afrodiaspórica, destaca Abreu, abrange manifestações tão diversas quanto as pinturas de Rosana Paulino, a literatura de Conceição Evaristo, os filmes de Spike Lee, o teatro negro brasileiro, o samba, o jazz, o hip hop, os slams de poesia, as culturas de terreiro, a moda afrocentrada e inúmeras outras práticas que articulam arte, identidade e pensamento a partir de perspectivas negras.
A proposta surge em um contexto de valorização dessa produção, mas que ainda revela uma sub-representação em acervos e circuitos culturais. “Mais do que uma categoria estética, a arte afrodiaspórica constitui um campo de produção de conhecimento e de reinterpretação do mundo a partir de epistemologias negras”, afirma a curadora.
Ações virtuais e presenciais
A inauguração de Indumentárias Ancestrais na Galeria Arquipélago do Espaço Força e Luz marca a primeira atividade presencial da Oríkì. A mostra estabelece conexões entre saberes e estéticas de países como Angola, Benin e Nigéria com as vestimentas de mulheres negras do outro lado do Atlântico. “Resulta de uma pesquisa documental e iconográfica que articula fontes diversas para reconstituir vestimentas e adornos utilizados por mulheres negras no século 19, revelando permanências culturais de matriz africana no sul do Brasil”, explica Abreu, que assina a curadoria da exposição ao lado de Clau Campos, Deborah Silva e Caroline Ferreira.
A idealizadora do projeto destaca outras duas iniciativas presenciais que estão sendo planejadas pela Oríkì: o Festival Internacional de Arte Afrodiaspórica, com foco na cena cultural e no afroturismo no estado, e o Prêmio Oríkì de Arte Afrodiaspórica, voltado ao reconhecimento de agentes culturais.
No ambiente digital, o projeto pretende conectar mestres e mestras da cultura viva, pontos de cultura, artistas, produtores culturais e instituições. A galeria virtual será dividida em Visualidades, Oralituras, Sonoridades, Territorialidades e Saberes. Materiais educativos poderão ser incluídos na plataforma, que busca aproximar não só pessoas e espaços de países afrodiaspóricos, como também do continente africano.
“Teremos ainda a Comunidade Orí, um espaço de mapeamento, conexão e visibilidade para pessoas que atuam na produção, circulação e consumo da arte afrodiaspórica. A proposta é que instituições e agentes culturais possam utilizar a plataforma para encontrar profissionais, estabelecer parcerias e fortalecer redes de atuação”, ressalta Abreu, destacando o diálogo da proposta com a Lei 10.639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em todas as escolas públicas e privadas de ensino fundamental e médio.
Ao lado de Abreu, responsável pelo eixo curatorial Galeria, as curadoras Michele Zgiet, Rosane Vargas e Andréa Hygino lideram respectivamente os eixos Educativo, Programa Público e Comunidade. Os próximos passos da iniciativa envolvem a implementação do festival e do prêmio, a ampliação da comunidade e da galeria digital e a captação de recursos para as atividades da plataforma.
Lançamento da plataforma Oríkì – Arte Afrodiaspórica e abertura da exposição “Indumentárias Ancestrais”
Quando: 19 de maio, às 18h30
Onde: Espaço Força e Luz (Rua dos Andradas, 1223 – Centro Histórico – Porto Alegre)
Entrada gratuita
Seminário “Indumentárias Ancestrais – Diálogos Contemporâneos”
Mesa “Moda e Ativismo”
Participantes: Goya Lopes, artista e designer, e Débora Idalgo Marques, professora de Moda do SENAC e doutoranda em Design pela UFRGS
Mediação: Cláudia Campos, designer e historiadora
Quando: 20 de maio, às 16h
Onde: Espaço Força e Luz
Mesa “Do cotidiano oitocentista brasileiro aos ritos da tradição de matriz africana na contemporaneidade”
Participantes: Norma Alves de Oliveira, mestra da Casa do Alaká/ Ilê Axé Opô Afonjá, e Iraildes Maria Santos, mestra da Casa do Alaká/ Ilê Axé Opô Afonjá
Mediação: Nina Fola, artista e socióloga
Quando: 20 de maio, às 19h
Onde: Espaço Força e Luz
Mesa “Resgate de Vestimentas Tradicionais em Angola e no Brasil”
Participantes: Elizabeth Santos, professora do Departamento de Ensino e Investigação de Design de Moda da Universidade de Luanda (Uniluanda) e Izis Abreu, diretora da Oríkì
Mediação: Laila Garroni, atriz e jornalista
Quando: 21 de maio, 19h (Brasil) | 23h (Angola)
Formato: virtual (através da plataforma Meet, com link disponível na bio da Oríkì no Instagram)
Fonte: Matinal Jornalismo
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