ESTUDO: Pesquisadores gaúchos fazem descobertas surpreendentes nas doenças contraídas na enchente de 2024
Pesquisadores gaúchos descobrem que a maior parte dos casos com suspeita de leptospirose na enchente de 2024 era de outras doenças, especialmente dengue. Leptospirose, no entanto, foi a doença com desfechos clínicos mais graves.
Entenda neste post porque isso é considerado uma boa notícia.
Roberto Carlos Freitas Bugs, Marineide Gonçalves de Melo e Breno Riegel - Divulgação
Percebendo que muitos casos notificados como leptospirose tinham sintomas também compatíveis com outras doenças, a equipe de Infectologia do GHC entrou em contato com a UCLA e com a Fiocruz para agilizar a testagem de leptospirose e ampliá-la para outras patologias, identificando a real causa dos sintomas. Todos os 539 pacientes do banco de dados do GHC que apresentaram sinais e sintomas compatíveis com leptospirose, foram convidados a retornar ao ambulatório de infectologia do Instituto de Pesquisa Clínica do Rio Grande do Sul (IPARGS), vinculado ao Hospital Nossa Senhora da Conceição, onde foram testados para leptospirose e dengue.
Ao final do estudo, a equipe encontrou 17 casos confirmados de leptospirose (3,5% da amostra de 485) e 102 casos confirmados de dengue (33,7% da amostra de 303). Entre o grupo que realizou os dois testes, 191 pacientes (67,5%) tiveram resultado negativo para ambas as doenças, mas foram identificados dois casos de influenza A, dois casos de hantavírus, dois casos de malignidade avançada com sepse associada e uma infecção aguda por HIV.
A idade mediana dos participantes foi de 38 anos, sendo que aproximadamente 61% dos pacientes eram do sexo masculino. Entre os participantes com leptospirose, 88% eram do sexo masculino, em comparação com 51% com dengue. A maioria dos pacientes (83,5%) recebeu atendimento ambulatorial, enquanto 16,5% foram hospitalizados. A maioria dos pacientes com leptospirose (58,8%) foi hospitalizada, em comparação com 14,7% daqueles com dengue. Da mesma forma, 47,1% dos pacientes com leptospirose foram internados na unidade de terapia intensiva (UTI) e 11,8% morreram em comparação com 2% dos pacientes com dengue. O estudo demonstrou, portanto, que a leptospirose esteve associada a desfechos clínicos mais adversos quando comparada à dengue e ao grupo de doenças não relacionadas/desconhecidas, sendo mais provável que a doença acometesse o sexo masculino.
Para os pesquisadores, os dados reforçam a necessidade de uma vigilância sistemática mais ampla para patógenos que possam circular em caso de grandes desastres ambientais. “Além disso, diagnósticos mais robustos são urgentemente necessários para distinguir entre as causas de surtos predominantemente febris diante de um clima em mudança”, destacam.
O estudo destaca que o vírus da dengue comumente ocorre simultaneamente com casos de leptospirose, pois as águas das enchentes criam criadouros para o mosquito vetor, Aedes aegypti. “Além disso, a dengue e a leptospirose são difíceis de distinguir clinicamente, especialmente nos estágios iniciais da doença. Surtos concomitantes podem complicar a compreensão de uma epidemia se os diagnósticos precisos não forem estabelecidos”, alerta.
Para distinguir os surtos das doenças de forma confiável, os pesquisadores defendem a realização de testes laboratoriais diretos por meio da Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), testes de antigenemia ou medições de sorologia. Para o infectologista Breno Riegel, coordenador do Serviço de Infectologia do Hospital Nossa Senhora da Conceição, os chamados “testes rápidos” podem garantir diagnósticos mais assertivos e evitar o consumo desnecessários de antibióticos.
| Marineide, Karin Nielsen e Cristopher J. Hernandez e Fernando Echegeray, da UCLA |
Fatores de risco e sintomas
O fator de risco mais relatado foi a exposição à água de enchentes, afetando 86,5% dos participantes, incluindo 100% daqueles diagnosticados com leptospirose. Outras exposições frequentemente relatadas incluíram contato com lixo (25,6%), proximidade ou contato com ratos (17,0%) e contato com corpo d'água natural (11,8%). Não houve diferenças significativas nos tipos de exposição ao risco. Quase todos os pacientes deste estudo residiam na Região Metropolitana e Norte de Porto Alegre.
Houve frequências significativamente diferentes de sinais e sintomas específicos entre os três grupos diagnósticos, incluindo dor de cabeça, sintomas respiratórios, diarreia, lesão renal aguda (LRA), icterícia, diátese hemorrágica e hemorragia pulmonar. Febre foi o sintoma mais comum, relatado em 89,3% dos pacientes em geral, seguido por dor de cabeça (77,1%), diarreia (39,3%) e sintomas respiratórios (28,9%). As diferenças mais marcantes foram observadas na IRA, observada em apenas 6,4% dos casos em geral, mas em 37,5% dos casos de leptospirose. Icterícia foi observada em 5,8%, mas em 25,0% daqueles com leptospirose. Diátese hemorrágica foi observada em 5,7% dos pacientes, mas em 18,8% dos pacientes com leptospirose. Por fim, hemorragia pulmonar foi identificada apenas em 1,4% dos pacientes, mas foi vista em 25% dos casos de leptospirose.
Mudanças climáticas
A pesquisa destaca que o predomínio da dengue, apesar das preocupações iniciais sobre a leptospirose após a exposição à inundação de maio de 2024, foi inesperado. Isso porque a inundação ocorreu durante o outono, uma época em que as temperaturas normalmente caem abaixo da faixa ideal para a atividade do mosquito no sul do Brasil.
“Há uma necessidade urgente de examinar o impacto das mudanças climáticas na distribuição geográfica dos vetores arbovirais, especialmente na expansão das populações de Aedes aegypti”, defendem os pesquisadores, acrescentando que os esforços de saúde pública devem priorizar a vigilância contínua de vetores e estratégias de prevenção de doenças adaptativas ao clima para mitigar o crescente fardo da dengue no sul do Brasil.
Pesquisadores
Hospital Nossa Senhora da Conceição/GHC: Greici Gunzel, Clarice Ritter, Roberto Carlos Freitas Bugs, Thiago Rocha, Ivana Rosângela dos Santos Varella, Maria da Graça Pimenta Machado, Carina Guedes Ramos, Ângela Piccoli Ziegler, Breno Riegel Santos e Marineide Gonçalves de Melo.
Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz: Trevon Fuller e Patricia Brasil.
David Geffen School of Medicine – UCLA: Christopher J. Hernandez e Karin Nielsen-Saines.
Por que essa é uma boa notícia?
Após a enchente histórica de 2024, havia um grande temor de que o Rio Grande do Sul enfrentasse um surto grave de leptospirose. Essa preocupação levou a medidas emergenciais, como o uso preventivo de antibióticos.
Agora, essa pesquisa conduzida pelo Grupo Hospitalar Conceição, em parceria com instituições como a Fiocruz e a UCLA, trouxe um dado animador: o surto não se confirmou. Entre centenas de pacientes testados, apenas 3,5% tiveram diagnóstico de leptospirose.
Isso significa que, apesar das condições críticas e do risco real, o cenário foi muito menos grave do que se temia. O estudo também mostra a importância da testagem rápida e precisa para evitar tratamentos desnecessários e direcionar melhor os esforços de saúde pública.
Em meio a tantas dificuldades, essa é uma vitória silenciosa: a ciência, a vigilância e a ação preventiva ajudaram a evitar uma tragédia maior.
Vale destacar que a realização de estudos científicos como este é sempre positiva, pois contribui para decisões mais assertivas, orienta estratégias de prevenção e ajuda a direcionar recursos para onde realmente são necessários. A ciência, ao identificar as reais causas de problemas de saúde, evita diagnósticos equivocados e tratamentos desnecessários, fortalecendo toda a rede de proteção à comunidade.
Fonte: GHC e Rede #AP
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