Confira minha análise neste post.
| Divulgação |
Fazia tempo que não assistia a uma obra com tanta qualidade: direção, roteiro, atuações, figurinos, fotografia, cenografia, reconstituição de época, personagens fortes e consistentes, diálogos muito bem escritos (transitando entre a seriedade e até mesmo o humor, incrível, ainda mais em meio à tragédia que o recorte do filme traz). Nuremberg supera com folga boa parte da badalada safra recente do Oscar. Infelizmente. O filme de James Vanderbilt, que acaba de estrear nos cinemas de todo o Brasil, não é apenas um filme; é um soco no estômago necessário e um filmaço com "F" maiúsculo.
O foco é no final da Segunda Guerra Mundial, acompanhando o tenso julgamento de 22 líderes nazistas por um tribunal militar internacional. Uma página da história que já foi filmada diversas vezes, em filmes e séries (veja mais embaixo), que tem um peso que se transforma na tela em um espetáculo de atuações e tensão psicológica.
Não é uma obra que chega com estardalhaço, nem tentando convencer de que é genial. Pelo contrário: ela vai construindo tudo com uma calma proposital, mas não demasiada a ponto de cair na monotonia. Uma película de 2h30min poderia se dar ao luxo de ter momentos mais enfadonhos. Mas não. Quando você se dá conta, já está completamente envolvido.
A primeira coisa que chama atenção é o ritmo. Não é um filme apressado. Ele respeita o tempo das cenas, dos silêncios, dos olhares. E isso, hoje em dia, já diz bastante coisa. Existe uma confiança ali — na direção, no roteiro, e principalmente na inteligência de quem está assistindo, que respeita e admira o que vê na tela.
O embate principal é um deleite para quem gosta de cinema. De um lado, temos Russell Crowe na pele de Hermann Göring, o braço direito de Hitler. Eu admito que nunca fui o fã número um do Gladiador, mas o que ele entrega aqui é brilhante. Do outro lado, Michael Shannon — um ator que muitas vezes soa antipático — dá um verdadeiro show de competência no papel do procurador-chefe Robert H. Jackson, que foi responsável pela acusação dos militares nazistas, levando-os a um tribunal para que, oficialmente, tivessem um julgamento justo.
Mas nem tudo é perfeito, e é aqui que precisamos falar de Rami Malek. Ele interpreta o psiquiatra Douglas Kelley, responsável por avaliar a sanidade dos nazistas. O problema? Malek parece ter ficado eternamente preso nos trejeitos de Freddie Mercury de "Bohemian Rhapsody". O excesso de maneirismos dele quase estraga a imersão.
Estava tudo bem até a série que lançou Malek ao estrelato, Mr. Robot (2015-2019), na qual ele interpretava um hacker antissocial. Infelizmente, depois ele entrou num papel e nunca mais saiu. Falta envergadura. Falta potência. Falta dramaticidade para ele vociferar os diálogos tão bem construídos para o personagem. Mesmo assim, ainda conseguimos abstrair e entender que o longa é notável.
Quem assina a direção é James Vanderbilt. Impressionante. Como pode ser ele o mesmo que assina a versão mais recente de "A Fonte da Juventude" (disponível na Apple TV), que é simplesmente uma das piores coisas feitas no cinema de aventura? Mas Vanderbilt tem um crédito de peso: ele escreveu o roteiro do excelente Zodíaco (2007) e estreou na direção com Conspiração e Poder (2015), um bom e correto filme sobre os bastidores do jornalismo. Em Nuremberg, ele finalmente mostra maturidade na cadeira de diretor.
A trilha sonora também merece atenção. Em vez de explorar somente a emoção, ela entra nos momentos certos, com discrição. Não tenta roubar a cena — ela complementa. E isso é um detalhe que muita gente não percebe conscientemente, mas sente o efeito. Eu mesmo só percebi ao final, quase nos créditos finais. Mas tinha absorvido tudo que Brian Tyler quis fazer. O mais incrível (de novo), é que mesmo tendo sido indicado a alguns prêmios, seus trabalhos em trilhas eram de títulos "menores", como "Velozes e Furiosos", "Homem de Ferro", "Thor", "Os Mercenários" e "O Super Mario Bros".
Sem spoilers, mas com verdades
Há um momento no filme em que o cinema inteiro emudece. O filme recria o instante histórico em que as luzes do tribunal se apagam e os horrores dos campos de concentração são projetados para os réus. As imagens exibidas na tela, em preto e branco, para o júri são dolorosamente reais - extraídas do documentário Nazi Concentration Camps, um compilado de filmagens brutais feitas pelas forças aliadas quando libertaram os campos em 1945, usado como prova cabal no julgamento original. É uma linha divisória na obra: choca os personagens na tela e paralisa a plateia na poltrona.
Apesar dos tropeços de Malek, o saldo de Nuremberg é extremamente positivo. É um lembrete audiovisual de que a história não pode ser esquecida para não ser repetida. Há ainda os desfechos dos personagens envolvidos, que muitos não sabem ou não lembram. É uma aula de história, que vai de brinde. Vale cada centavo do ingresso.
Nuremberg no cinema
É impossível não colocar o Göring de Russell Crowe lado a lado com a versão visceral que o mestre Brian Cox entregou na aclamada minissérie do ano 2000, onde duelava com Alec Baldwin no papel da promotoria. Isso sem falar, claro, no clássico absoluto de 1961, dirigido por Stanley Kramer. Aquele filme vencedor do Oscar, com gigantes como Spencer Tracy e Burt Lancaster, mudava o foco e colocava no banco dos réus os juízes que usaram as leis para legitimar a barbárie.
Há ainda um documentário oficial encomendado pelo governo dos EUA logo após os julgamentos. A ironia é que, por questões geopolíticas (o início da Guerra Fria e a necessidade de aliança com a Alemanha Ocidental), o filme foi engavetado nos Estados Unidos e só foi restaurado e exibido para o grande público americano décadas depois.
| renatomartins@redeatitudepositiva.com.br |
Renato Martins, jornalista, radialista, cinéfilo e professor, editor da Rede #AtitudePositiva e criador do projeto mulimídia #CenadeCinema.
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