A ciência avança em ritmo acelerado na direção do diagnóstico precoce do Alzheimer, uma das frentes mais promissoras nas pesquisas sobre demências associadas ao envelhecimento.
A possibilidade de detectar a doença 20 anos antes de surgirem sintomas por meio de um exame de sangue pode revolucionar sistemas de saúde e tornar o processo mais acessível em um futuro próximo.
Veja mais detalhes.
| Kaj Blennow - University of Gothenburg/Reprodução |
O tema foi destaque na 2ª edição do Clinical Research Summit, realizado nesta semana em Porto Alegre. Promovido pelo Hospital Moinhos de Vento, o evento trouxe pela primeira vez ao Brasil o pesquisador Kaj Blennow, uma das principais referências mundiais no tema.
O pesquisador da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, apresentou evidências recentes, como a descoberta da proteína p-tau217 (tau fosforilada 217), um dos principais biomarcadores da doença além da beta-amiloide.
A hiperfosforilação das proteínas é um processo bioquímico que favorece a formação de grumos no cérebro. Essa é uma das principais causas da doença, que consiste na transformação de proteínas saudáveis em agregados tóxicos que provocam a degeneração dos neurônios.
Os avanços científicos surgiram à medida que os pesquisadores compreenderam melhor como funciona a evolução da doença.
— O envelhecimento não é algo preto no branco. É um processo contínuo e heterogêneo. Percebemos que não existe uma linha divisória clara entre o envelhecimento normal e a doença de Alzheimer, e que a patologia evolui ao longo do tempo. Chamamos isso de continuum (trajetória progressiva e contínua) da doença de Alzheimer — explica Blennow.
Durante décadas, o diagnóstico da doença dependia de estratégias caras e invasivas, como o exame de líquor e o PET Scan. Com os avanços científicos, novidades estão surgindo.
— Temos o exame de líquor, que é semelhante a um exame de sangue, mas você tira um pouco de fluido que chamamos de líquido cerebrospinal. Dessa forma, é possível medir os biomarcadores. Isso é comum em muitos países, mas não em todos.
"Mais recentemente, surgiu a possibilidade de medir o mesmo tipo de proteína (p-tau217) com um simples exame de sangue. E funciona muito bem", diz Blennow.
Avanços científicos
Diferentes pesquisas reforçam a tese. Um estudo recente liderado por Kaj Blennow e outros pesquisadores publicado na revista britânica Nature, um dos periódicos científicos mais importantes do mundo, demonstra que o biomarcador p-tau217 mostrou valor preditivo consistente em todos os estágios da doença.
A investigação contou com a participação de 1.416 pacientes, incluindo pessoas cognitivamente normais, com comprometimento cognitivo leve e com Alzheimer.
Ao final, revelou que a progressão do Alzheimer pode ser prevista de forma mais precisa combinando múltiplos biomarcadores, e que o exame de sangue pode contribuir amplamente na estratificação de risco dos pacientes.
Outro trabalho publicado em 2026 na Nature, com a participação de cientistas como Hyun-Sik Yang, da Universidade de Harvard, demonstrou que em pacientes com níveis mais altos de p-tau217 a progressão de alterações típicas do Alzheimer foi mais rápida.
Por outro lado, participantes que começaram o estudo com níveis baixos de p-tau217 tinham risco mínimo de progressão da doença. O estudo analisou 317 adultos idosos sem comprometimento cognitivo. O acompanhamento durou cerca de oito anos.
Quando exame deve chegar ao Brasil?
O exame de sangue para detectar Alzheimer já está disponível em alguns países, mas o teste ainda não foi validado para a população brasileira.
Uma pesquisa liderada pelo pesquisador Eduardo Zimmer, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e head de pesquisa no Hospital Moinhos de Vento, busca garantir a validação e incorporar o método ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Conduzida em parceria com o Ministério da Saúde e com a Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, a Iniciativa Brasileira de Biomarcadores para Doenças Neurodegenerativas (IB-BioNeuro) irá reunir dados clínicos e biológicos de 300 participantes de 10 municípios gaúchos, inicialmente. No total, serão avaliados 3 mil pacientes.
— Ainda não temos nenhum exame de sangue para Alzheimer aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Mas temos pelo menos seis estudos publicados sobre exames de sangue com pacientes aqui no Brasil. Muito em breve, teremos esses exames aprovados para uso clínico — destaca Zimmer.
Posteriormente, a investigação será ampliada para outros Estados. A pesquisa é um braço do ELSA-Brasil, maior estudo longitudinal sobre saúde do adulto na América Latina, e deve ter resultados nos próximos anos.
Segundo o pesquisador, a identificação precoce dos fatores de risco para a doença irá contribuir amplamente no desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas.
"Se o indivíduo terá a doença com 65 anos, aos 45 ele começa a ter as alterações patológicas no cérebro. Isso abre uma janela muito grande para intervenções farmacológicas ou terapêuticas que sejam efetivas", afirma Zimmer.
Quando começar a testagem?
Zimmer ressalta que o exame de sangue não deve ser realizado por pacientes sem sintomas, uma vez que muitas vezes a doença não se manifesta, mesmo em pessoas que apresentam fatores de risco, como a presença da p-tau217 no sangue:
— Apesar de os sinais aparecerem 20 anos antes, não é recomendado testar com essa antecedência. Muitos indivíduos podem até ser positivos para o biomarcador sem ter sintomas, e nunca irão desenvolver sintomas. A testagem é indicada a partir do momento em que aparecem os primeiros sintomas.
Dados do Ministério da Saúde apontam que a doença de Alzheimer afeta cerca 8,5% da população com 60 anos ou mais no Brasil atualmente, o que equivale a cerca de 1,5 milhão de pessoas. Até 2050, o país deve chegar a 5,7 milhões de casos. O maior fator de risco é o envelhecimento, sendo mais comum após os 65 anos.
Em 2025, a Rede #AtitudePositiva publicou sobre um teste de saliva desenvolvido pela USP que pode detectar o Alzheimer também com 20 anos de antecdência, clique para reler a notícia
Fonte: GZH
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