Depois de abrir dois restaurantes em Paris, Alessandra Montagne inaugura seu espaço no Museu Louvre, em um feito inédito na gastronomia brasileira. Ela também assina o menu do Cícero, no Chiado, um dos bairros mais emblemáticos e tradicionais da cidade de Lisboa. Lá a arte moderna brasileira se mistura com as técnicas francesas e produtos portugueses.
Veja a história do Pão de Queijo em Paris.
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É na ala Richelieu do Museu do Louvre, onde o Código de Hamurabi divide espaço com obras icônicas como A Rendeira, de Joahannes Vermeer, e a Galeria Médici, assinada por Rubens, que a chef carioca Alessandra Montagne demarca terreno. O Muses, um dos restaurantes do projeto assinado por Alain Ducasse para um dos cartões-postais mais emblemáticos de Paris, abriu suas portas na quinta-feira, 25 de junho. No projeto, ela tem a parceria da Cojean, empresa focada em alimentação saudável e que reforça o café da manhã do espaço.
"Um dos maiores públicos do museu é o brasileiro, e o convite para assumir o espaço gastronômico veio justamente como forma de homenagear e atender esses visitantes", disse a chef à altura do lançamento do projeto, há pouco mais de dois anos — as obras tiveram um certo atraso devido aos cuidados com a estrutura e o acervo de museu.
Na primeira fase do projeto, no entanto, a brasilidade ainda é tímida e se expressa, especialmente, por meio do pão de queijo recheado com queijo Comté. Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, a chef foi criada em Poté, no interior de Minas Gerais, e homenageia suas raízes com um toque à francesa, já que foi na meca da gastronomia que ela foi seduzida pela cozinha profissional.
Outros pratos com toques sutis de brasililidade são a tortilla de trigo, que leva frango marinado e creme de milho — uma combinação clássica no Brasil. O prato também leva abacate e salada de repolho, para dar mais frescor.
Carnívoros e veganos
Nesta etapa inicial, também há hambúrguer de carne desfiada com molho barbecue chipotle e batatas fritas, para agradar os carnívoros, e curry de legumes vegano, para quem evita o consumo de proteína animal. No cardápio, também há dourado (ou dourada, em Portugal) com arroz negro e creme de cenoura e limão siciliano.
Por fim, e não menos importante, o lado doce também tem um pezinho no Brasil e mistura chocolate cremoso e fava tonka, o nome europeu do cumaru, a baunilha de origem no Cerrado Brasileiro cada vez mais popular no universo da gastronomia mundial.
O Muses abre na segunda, quinta, sábado e domingo das 9h às 17h30 e na quarta e na sexta, das 9h às 19h. O serviço de café da manhã vai até as 11h e o almoço é servido das 11h45 às 16h15.
Percurso
A trajetória de Alessandra Montagne ilustra como a gastronomia atua como uma força de transformação profunda. Nascida na favela do Vidigal, no Rio, e criada no interior de Minas Gerais pelos avós, a chef brasileira trilhou um caminho singular até se destacar no exigente cenário da alta cozinha parisiense. "A coxinha foi o meu primeiro meio de subsistência, ainda no Brasil. Mas foi em Paris que vislumbrei a cozinha como profissão", diz.
A transição de país foi feita em um momento delicado da vida da chef, que chegou a sofrer violência doméstica e foi buscar uma nova oportunidade para além do oceano. Ao estudar francês, fez amigos para os quais cozinhava de modo recorrente e foi provocada. "Eles me incentivaram a estudar e fui atrás, com imensa dedicação", relembra.
Não demorou para abrir, ao lado do ex-marido, o primeiro restaurante Tempero, que foi onde o caminho dela se cruzou com o do mestre Alain Ducasse. "Não esqueço o dia em que ele entrou no restaurante, provou e elogiou a comida", conta. Dali, surgiu a admiração mútua, que resultou na consolidação do projeto no Louvre.
Rigor técnico
O rigor técnico e a herança culinária do tempo da roça que imprime nas suas criações materializam-se no sucesso de espaços como o Tempero, hoje em novo endereço, e o Nosso, o restaurante gastronômico referenciado pelo Guia Michelin. "Tenho muito orgulho de ser brasileira e de ser uma das representantes do nosso país na França”, afirma.
Com esta bagagem e missão, a chef expandiu a sua atuação até Lisboa, ao assumir o menu do Cícero. Inaugurado há dois anos, o projeto traça um paralelismo poético com o artista modernista Cícero Dias, que inspira a casa: assim como o pintor, Alessandra atravessou o Atlântico rumo a Paris para depurar a sua arte, sem nunca perder a identidade de origem.
A sua chancela ajudou a consolidar uma narrativa cultural e gastronômica que une Brasil, França e Portugal. Hoje instalado numa nova e pulsante morada no Chiado, o Cícero continua a promover um diálogo imersivo entre a arte contemporânea e a gastronomia. Neste novo cenário, agora com o menu executado no dia a dia pelo chef Felipe Neves.
Fonte: Público Brasil PT
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