Pesquisador gaúcho explica como a tecnologia pode antecipar riscos sanitários na fiscalização agropecuária
A inteligência artificial já está presente em diversas atividades diárias e vem ganhando espaço também na fiscalização agropecuária. Para pensar como essa tecnologia pode auxiliar o trabalho dos fiscais e quais transformações pode trazer para o setor, o jornal Correio do Povo conversou com Vinícius Maran, coordenador do Laboratório de Computação Ubíqua, Móvel e Aplicada (Lumac) da UFSM. Ele desenvolveu a Plataforma de Defesa Sanitária Animal (PDSA) do RS para o Serviço Oficial.
| Wenderson Araujo / Trilux / CNA / Divulgação |
Nesta quinta-feira (25), participará do painel “O Fiscal Estadual Agropecuário na era da Inteligência Artificial”, que faz parte da programação do seminário técnico “O futuro da Fiscalização Agropecuária já começou - A convergência entre a inovação da inteligência artificial e o valor insubstituível da experiência e do conhecimento dos Fiscais Estaduais Agropecuários”, promovido pela Associação dos Fiscais Agropecuários do Rio Grande do Sul (Afagro), em celebração ao Dia do Fiscal Estadual Agropecuário. Na entrevista, Maran conta sobre as aplicações de IA na fiscalização.
Confira abaixo:
Como tecnologias como a inteligência artificial e plataformas digitais podem contribuir para a manutenção da sanidade animal e para a prevenção de surtos e emergências sanitárias?
O maior ganho é a mudança de uma atuação reativa para uma atuação preventiva. Plataformas digitais integradas permitem consolidar informações que antes estavam dispersas e, quando associadas à modelos de IA e sistematização inteligente de processos, tornam-se capazes de detectar sinais precoces de surtos, emitir alertas automáticos, monitorar indicadores em tempo real, identificar áreas com maior vulnerabilidade, apoiar a definição de estratégias de contenção e otimizar a distribuição de equipes e recursos. A própria FAO (Food and Agriculture Organization) destaca que sistemas digitais e análises preditivas estão transformando a biosseguridade ao permitir respostas antecipadas aos riscos sanitários, e a WOAH reforça que a vigilância eficiente depende da capacidade de transformar grandes volumes de dados em ações rápidas e coordenadas. Na prática, isso significa identificar problemas antes que se agravem, conter focos com mais agilidade e proteger tanto a sanidade do rebanho quanto a população que depende dessa cadeia produtiva. Os casos de Newcastle (2024) e Influenza Aviária (2025) serviram para demonstrar de forma clara com a integração entre tecnologias e o serviço oficial altamente preparado foram capazes de realizar ações rápidas e precisas neste tipo de situação.
A defesa sanitária animal gera um grande volume de dados. Como a inteligência artificial pode transformar essas informações em ferramentas de apoio à tomada de decisão e à atuação dos fiscais?
A defesa sanitária animal produz um grande volume de dados, e com uma grande heterogeneidade, como por exemplo resultados laboratoriais, certificações, movimentação animal, notificações de suspeitas, geolocalização de propriedades e histórico de inspeções. Estas informações são geridas por diversos sistemas.
A utilização de técnicas de inteligência artificial pode transformar este grande volume de dados em conhecimento útil por meio da identificação de padrões, da detecção precoce de anomalias, da previsão de riscos sanitários, da construção de painéis inteligentes, da classificação automática de ocorrências e da recomendação de ações prioritárias.
Na prática, isso significa que sistemas podem alertar quais regiões apresentam maior probabilidade de ocorrência de determinada enfermidade, quais estabelecimentos merecem maior atenção ou quais tendências exigem investigação imediata. Alguns estudos que realizamos no contexto da PDSA-RS mostram que a integração entre modelos de linguagem e bases de conhecimento especializadas permite fornecer respostas contextualizadas e alinhadas à legislação vigente, auxiliando diretamente os profissionais responsáveis pelas análises técnicas .
Desde a implementação da PDSA-RS, quais foram os principais ganhos observados na gestão e na fiscalização sanitária? E como a inteligência artificial pode potencializar esses resultados nos próximos anos?
Desde a implementação da PDSA-RS, os principais ganhos se concentram na celeridade e na organização dos processos de defesa sanitária animal. Houve ganho expressivo de agilidade na emissão de certificados sanitários — como os de granjas GRSC (suínos) e de reprodução (aves) — e no registro de granjas comerciais avícolas. A plataforma também se mostrou decisiva no enfrentamento de eventos sanitários recentes, como a doença de Newcastle e a influenza aviária, permitindo o gerenciamento das equipes e a coordenação do atendimento durante e após os surtos, além de apoiar o controle do estoque de emergência do estado.
Para os próximos anos, a inteligência artificial deve potencializar esses resultados ao sumarizar grandes volumes de dados e antecipar riscos. O destaque é o módulo de vigilância em desenvolvimento, que vai nortear as ações de vigilância da Secretaria da Agricultura e fornecer aos gestores informações consolidadas para decisões mais rápidas e fundamentadas, direcionando o esforço operacional.
A PDSA-RS surge para atender demandas da avicultura e depois passou a abranger a suinocultura. Há planos de expandir a plataforma para outras cadeias produtivas?
Sim, há planos de expansão. A PDSA-RS nasceu para atender às demandas da avicultura e, em seguida, passou a contemplar a suinocultura, mas a concepção da plataforma sempre foi a de uma ferramenta de apoio ao serviço veterinário oficial como um todo. Os módulos atualmente em desenvolvimento — vigilância ativa, auditorias internas e fiscalização — não são específicos de uma única cadeia: foram pensados para auxiliar o trabalho do serviço veterinário oficial em diversas cadeias produtivas.
| Prof. Maran - Silvana Maldaner/Divulgação |
Fonte: Correio do Povo
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