Motorista mulher mais antiga da Carris celebra a profissão e reflete sobre os desafios de quebrar paradigmas

No dia a dia do trânsito intenso de Porto Alegre, uma figura feminina no comando de um ônibus ainda causa surpresa para muita gente. Mais de 50 anos após Teresinha Izabel entrar para a história, em 1974, como a primeira mulher a conduzir um coletivo na capital gaúcha, a presença feminina ao volante permanece sendo uma triste exceção. Para se ter uma ideia, dos mais de 200 ônibus que circulam diariamente pela Carris — a empresa de transporte público mais tradicional da cidade —, apenas dois são guiados por mulheres.

Acompanhe a seguir a trajetória de dedicação e superação de uma dessas profissionais.


Redes sociais/Reprodução 

Uma história que começou na garagem

Aos 54 anos, Cíntia Guterres ostenta com muito orgulho o título de motorista mulher em atividade há mais tempo na Carris. Sua história na empresa, que já soma 28 anos de dedicação, começou bem longe do volante nas ruas. Em 1997, ela ingressou na companhia para trabalhar na lavagem dos ônibus durante as madrugadas. Foi nesse ambiente, manobrando os veículos gigantes dentro da própria garagem, que o sonho começou a tomar forma.

Incentivada pelos colegas de trabalho e aprendendo com os profissionais mais experientes, Cíntia decidiu prestar o concurso interno. Foi aprovada com sucesso e, há 15 anos, assumiu definitivamente o posto de motorista, não largando mais a profissão. "Para ser motorista, tem que gostar. É uma profissão maravilhosa. Todo dia a gente aprende alguma coisa", celebra.

A rotina de quem acorda antes do sol

A vida de Cíntia exige disciplina de sobra. Todos os dias, o despertador toca às 3h30min da madrugada. Por volta das 5h30min, ela já está de saída da garagem da Carris, localizada na Zona Leste da cidade, rumo ao bairro Restinga. É dali que ela inicia a sua extensa jornada, cruzando a cidade pelas linhas T12 Restinga, T2 e T2A, conectando as zonas Sul, Leste e o centro de Porto Alegre.

O grande combustível para enfrentar essa rotina pesada vem de casa. Mãe solo de Jenifer e Jaderson, que já são adultos, e da caçula Alexia, de 12 anos, ela encontrou na direção a estabilidade financeira necessária para criar a família e garantir o sustento do lar.

O desafio de superar o preconceito diário

Embora a profissão de motorista, celebrada nacionalmente no dia 25 de julho, tenha lhe proporcionado inúmeras conquistas, a jornada não foi isenta de obstáculos. Em uma área historicamente dominada pelos homens, Cíntia relata que o olhar de desconfiança da sociedade ainda faz parte da rotina.

"Uns olham e ficam meio assim: 'Uma mulher dirigindo?'. Eu achei que eu não ia ter, mas ainda tem preconceito", lamenta a profissional, com a sinceridade de quem enfrenta o problema de frente. Contudo, as barreiras não diminuem a sua paixão pelo que faz. Muito pelo contrário, elas servem de impulso para abrir caminho para as próximas gerações de mulheres.

"Tenho muito orgulho de ser motorista. Antigamente, era uma profissão que as mulheres não podiam exercer. Hoje, estamos quebrando esses paradigmas", conclui Cíntia, provando que lugar de mulher é, sem dúvida alguma, onde ela quiser estar — inclusive no comando de um ônibus articulado no meio da capital.

Fonte: Diário Gaúcho



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