SUPERAÇÃO: Gaúcha que perdeu tudo nas enchentes dá a volta por cima e fatura R$ 1,3 milhão com mercadinhos em indústrias

Há pouco mais de dois anos, o cenário parecia irreversível para a empreendedora Márcia Lima. Com dois mercados autônomos recém-inaugurados totalmente destruídos pelas enchentes históricas de 2024 no Rio Grande do Sul, uma dívida se acumulando e o contador pronto para encerrar o seu CNPJ, a desistência parecia o único caminho.

Hoje, a realidade é completamente diferente: ela administra oito unidades da franquia Minha Quitandinha dentro de grandes plantas industriais, prepara a inauguração da nona loja e comemora um faturamento anual de R$ 1,3 milhão. O detalhe mais curioso dessa trajetória de superação? A ideia do negócio nasceu dentro da empresa onde ela trabalhou por quase duas décadas — e que, inicialmente, havia descartado o projeto.

Acompanhe os detalhes dessa história inspiradora de resiliência e visão de mercado.


Divulgação

Uma ideia rejeitada que virou a chave

Durante 19 anos, Márcia construiu sua carreira no polo petroquímico de Triunfo, na região metropolitana de Porto Alegre. Em sua última década na Braskem, atuou na associação de funcionários da companhia, cuidando de iniciativas focadas no bem-estar das equipes. Foi ali que enxergou uma oportunidade: a empresa precisava substituir uma antiga loja de conveniência dentro de uma das plantas.

Após pesquisar tendências, ela apresentou o modelo de mercados autônomos, que ainda engatinhava no Brasil. A resposta da chefia, no entanto, foi um balde de água fria. A empresa achou a ideia inovadora demais e temeu que o formato não funcionasse no ambiente petroquímico devido ao risco de furtos.

Com a reestruturação da Braskem e o encerramento das atividades da associação, Márcia ficou sem perspectiva na empresa, mas com uma excelente ideia na cabeça. Decidiu investir cerca de R$ 60 mil e abriu duas unidades da Minha Quitandinha em condomínios residenciais de Montenegro, no interior gaúcho. A ideia era ganhar experiência na operação para, no futuro, voltar a oferecer o serviço ao mercado corporativo.

O baque das enchentes e a quase desistência

O planejamento promissor foi brutalmente interrompido com poucos meses de operação. As enchentes de 2024 arrasaram o Rio Grande do Sul e atingiram em cheio os condomínios onde as lojas estavam instaladas. Márcia conseguiu salvar apenas os freezers e refrigeradores; todo o restante do estoque foi engolido pela água. Além das lojas, a sua própria casa foi afetada e ela perdeu um carro.

Quando a água finalmente baixou, o cenário era desolador. O poder de compra dos moradores despencou, muitos se mudaram da região e os condomínios decidiram não retomar os mercadinhos. Sem receita e com uma dívida de R$ 22 mil com fornecedores batendo à porta, Márcia ligou para o contador e pediu para dar baixa na empresa.

A antiga empregadora se torna a grande parceira

Foi no momento mais crítico que o telefone tocou com uma proposta inesperada. Durante o isolamento provocado pelas enchentes, os funcionários da Braskem precisaram ficar confinados nas plantas industriais. A companhia, então, percebeu a urgência de oferecer alimentação e conveniência 24 horas para as equipes. Aquele projeto recusado meses antes passou a fazer todo o sentido.

A Braskem procurou Márcia para instalar cinco mercados autônomos. O desafio agora era outro: ela não tinha estrutura financeira para abraçar o contrato. Sem capital, recorreu à franqueadora Minha Quitandinha, que aportou R$ 20 mil para ajudar no recomeço. Com fornecedores estendendo prazos e amigos ajudando a montar as prateleiras, as cinco lojas entraram em operação em tempo recorde de dois meses.

"Quando terminei esse período, todos os fornecedores estavam pagos e eu já tinha dinheiro para montar a quarta loja", relembra a empreendedora.

O diferencial de quem conhece o chão de fábrica

Hoje, Márcia não atua mais em condomínios. Toda a sua operação é focada em empresas do polo petroquímico gaúcho. Na prática, a sua bagagem de quase duas décadas vivendo o ambiente corporativo se transformou no seu maior diferencial competitivo.

Ela conhece de perto os turnos pesados de trabalho, entende o que o funcionário busca para uma refeição rápida de madrugada e adaptou todo o mix de produtos para essa realidade. Além de vender conveniência, os mercadinhos se tornaram parceiros estratégicos das empresas, recebendo campanhas de saúde, ações de recursos humanos e eventos temáticos. Para dar conta do recado, ela montou uma central de distribuição própria, garantindo o abastecimento diário e organizado das unidades.

Crescer com qualidade e pé no chão

Apesar do salto rápido para oito lojas e a previsão de abrir mais uma unidade em agosto, Márcia decidiu colocar o pé no freio da expansão desenfreada. O foco em 2026 é profissionalizar a gestão. Ela está mergulhada na revisão de processos, precificação e acompanhamento de indicadores financeiros, preparando a estrutura antes de dar novos passos.

"O foco agora é organizar a casa. Crescer é importante, mas crescer com qualidade é mais importante", reflete. O próximo objetivo é adquirir um novo veículo para reforçar a logística e atender a demanda crescente em outras empresas de Montenegro.

Para quem quase perdeu tudo há dois anos, a lição que fica é clara e madura: "O desafio não é crescer. É construir uma empresa capaz de sustentar esse crescimento".

Fonte: Exame


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